Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

COMEÇA HOJE

COM MAIS DE 1.000 INSCRITOS, COMEÇA HOJE O GLOBAL FORUM AMÉRICA LATINA
Começa nesta quarta-feira, dia 18, o Global Forum América Latina. Mais de 1.000 pessoas – entre empresários, executivos, representantes da academia, do poder público e da sociedade civil – vão se reunir em Curitiba durante três dias para discutir a educação para os negócios, com foco na sustentabilidade.
Estarão presentes grandes nomes do mundo acadêmico e corporativo, entre os quais o indiano Ram Charan, reconhecido como um dos mais influentes consultores de empresas da atualidade. Além das palestras e debates, durante o evento serão apresentados 86 artigos científicos e casos de sucesso em sustentabilidade.As discussões serão acompanhadas por mais de 40 veículos de comunicação de todo o País, já credenciados para a cobertura do evento.O Global Forum é uma promoção do Sistema Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), com apoio do Serviço Social da Indústria (Sesi), em parceria com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP) e Case Western Reserve University (EUA).


EVENTOS PARALELOS
Uma série de eventos acontecerá em Curitiba paralelamente ao Global Forum, todos no Cietep. Fazem parte da agenda reuniões do Comitê Brasileiro do Pacto Global. O comitê é formado por 32 membros responsáveis por promover a adoção e incorporação dos princípios do Pacto Global - uma iniciativa lançada em 2000, pela ONU, que envolve empresas, organizações da sociedade civil, organizações trabalhistas e instituições acadêmicas para promover a cidadania corporativa responsável, ajudando a criar uma economia global mais inclusiva e sustentável. O comitê também vai promover, na quarta-feira, uma oficina de COP (Comunicação de Progresso), relatório anual que as signatárias do Pacto devem fazer para mostrar seu progresso em relação aos 10 princípios do Pacto Global.


DIAGNÓSTICO DE SUSTENTABILIDADE
Amanhã, antes da abertura oficial do Global Forum, acontece o Seminário de Apresentação de Resultados do Diagnóstico de Sustentabilidade Corporativa/Paraná. O diagóstico é resultado de um levantamento realizado em cinco indústrias paranaenses: Sadia, de Toledo; Volvo, de Curitiba; Masisa, de Ponta Grossa; Romagnole, de Maringá; e Milênia, de Londrina. O trabalho foi realizado pela Unindus, universidade corporativa do Sistema Fiep, sob a coordenação da Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável (FBDS).


CONFERÊNCIA SOBRE REDES SOCIAIS
Outro importante evento paralelo ao Global Forum é a pós-Conferência Redes Sociais e Sustentabilidade, com o estudioso David de Ugarte, da Espanha, e o professor e analista político Augusto de Franco. Eles falarão de experiências e abordarão características de redes e suas relações com a sustentabilidade (ou desenvolvimento, em uma visão sistêmica). O evento é aberto ao público, com entrada gratuita, e terá início logo após o encerramento do Global Forum, na sexta-feira. Será coordenado pelo presidente do Sistema Fiep, Rodrigo da Rocha Loures.



TRANSMISSÃO VIA WEB
O público também poderá acompanhar o Global Forum pela internet. Haverá transmissão de flashes ao vivo via web no site do evento – www.globalforum.com.br e em pontos na Universidade Estadual de Ponta Grossa; Unibrasil, em Curitiba; Unopar, em Londrina; Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro e Banco Real, em São Paulo. Também haverá pontos de transmissão em 23 unidades do Sistema Fiep no interior. O público poderá assistir a dois telejornais diários, às 8 e às 18 horas, com os principais acontecimentos do dia.

Domingo, 15 de Junho de 2008

A 3 DIAS DO GFAL

Estamos a 3 dias do início do GFAL. Repito aqui a publicação de um artigo que já está neste blog, mas pouca gente viu.

PARA ALÉM DA SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL

Quando falam de sustentabilidade, freqüentemente as pessoas se esquecem de dizer de que sustentabilidade se trata. A do planeta (e aí dá vontade de fazer uma provocação: por que não a do sistema solar, a da galáxia ou a do quadrante em que nos situamos neste universo)? Se não, trata-se então da sustentabilidade da vida na Terra (ou da biosfera)? Ou será que nossa preocupação é com a sustentabilidade do ser humano como espécie? Mas não seria mais pertinente – se estamos tratando de sustentabilidade empresarial – nos preocuparmos com a sustentabilidade das sociedades humanas (e, por conseqüência, das organizações que a compõem, como as empresas)?

Ainda que os padrões (ou os mecanismos, ou os processos) de sustentabilidade possam ser semelhantes, os desafios são diferentes dependendo do âmbito a que nos referimos. E misturar as coisas, achando que organizações (como as empresas) serão sustentáveis se se dedicarem à proteção do meio ambiente (natural), não ajuda muito. Tudo indica que tal providência não é suficiente: uma empresa pode trabalhar o quanto quiser em prol da conservação ambiental, mas nem por isso terá garantida a sua sustentabilidade organizacional. E é duvidoso que suas ações possam contribuir para salvar a vida na Terra.

O planeta vivo – Gaia, na hipótese dos cientistas James Lovelock e Lynn Margulis – tem uma capacidade incrível de conservar a sua adaptação e a sua estrutura básica. "A vida ou a biosfera regula ou mantém o clima e a composição atmosférica em um nível ideal para si mesma" (esta é a hipótese Gaia). O problema, como argumenta Lovelock (1991), é que uma parte de Gaia, composta pelo "restante da criação... moverá inconscientemente a própria Terra para um novo estado, um estado no qual nós, seres humanos, poderemos não mais ser bem-vindos".

Lovelock não está preocupado com a vida em geral, que permanece protegida por um eficiente mecanismo autoregulador, e sim com a vida humana. Essa, sim, corre sério risco de desaparecimento; não por más, mas por boas razões do ponto de vista do sistema vivo global: se os seres humanos forem sacrificados por Gaia, o serão por efeito colateral de um processo que visa, sobretudo, garantir a vida na Terra.

Não estamos obrigados a aceitar os juízos políticos que Lovelock deriva dessa espécie de determinismo biológico fatal. Em um prefácio de 2004, ao artigo "Gaia: medicine for an ailing planet" ele faz um apelo a todos os ambientalistas para que:

"Ponham de lado os seus temores sem fundamento [por exemplo, em relação ao progresso científico-técnico na sintetização de alimentos ou na utilização da energia nuclear] e a sua obsessão exclusiva em relação aos direitos humanos [e essa é uma conclusão, digamos, pelo menos temerária, em um tipo de civilização como a que vivemos]... Sejamos corajosos o bastante - exorta Lovelock - para reconhecer que a verdadeira ameaça provém dos danos que causamos ao ser vivo que é a Terra, da qual fazemos parte, e que é realmente o nosso lar".

Sim, mas essa não é a única "verdadeira ameaça": estamos diante de várias outras ameaças, que não podem ser consideradas como não-tão-verdadeiras.

Lovelock endossa as palavras do seu cientista-chefe, Sir David King, o qual declarou, no início de 2004, nos Estados Unidos, "que o aquecimento global é uma ameaça maior do que o terrorismo". Talvez até seja. Mas isso não pode desviar nossa atenção das ameaças à democracia e ao desenvolvimento humano e social sustentável, que são tão verdadeiras e tão presentes quanto a ameaça do aquecimento do planeta.

Não é uma questão de comparar riscos. É claro que o desaparecimento da espécie humana anulará todas as preocupações humanas. Mas, de certo modo, algum dia a nossa espécie desaparecerá mesmo: pelo menos neste planeta, com a extinção do sol (que deixará de ser uma estrela amarela daqui a aproximadamente 5 bilhões de anos); ou nesta galáxia, que está marcada para morrer (como já se sabe, a nossa Via Láctea está em rota de colisão com a galáxia de Andrômeda, a 125 quilômetros por segundo e o desastre ocorrerá nos próximos 10 bilhões de anos); ou neste universo, com o "Big Crunch".

Ocorre que, por meio do que chamamos de social, estamos construindo um mundo humano, que tem como base o mundo natural, mas que não é conseqüência do mundo natural. A tentativa humana de humanizar o mundo (ou, para usar uma expressão poética, de humanizar a "alma do mundo" por meio do social) é uma espécie de segunda criação... Para quem pensa assim, a vida é um valor principal, mas não o único: certos padrões de convivência social, além da vida (biológica) – como a cooperação ampliada socialmente ou a vida em comunidade, as redes voluntárias de participação cidadã e a democracia na base da sociedade e cotidiano do cidadão – também constituem um valor inegociável, quer dizer, um valor que não pode ser trocado pelo primeiro.

Vamos caricaturar um pouco uma hipotética situação de escolha, para mostrar o sentido do argumento. Se alguém nos dissesse que, para continuar existindo como espécie, nós, os seres humanos, nunca mais poderíamos materializar, em nossa convivência social, a cooperação, o voluntariado, as redes e a democracia, a troca valeria a pena? Quem de nós poderia aceitar tal trade off, condenando nossa espécie a viver, por exemplo, (não apenas mil anos, mas, digamos, um milhão de anos ou mais) naquele III Reich com que sonhavam Hitler e seus colaboradores sociopatas e psicopatas?

Em outras palavras, não podemos esquecer tudo isso para nos dedicarmos agora somente a tentar retardar o desaparecimento biológico da espécie. Não vale ser salvo da destruição para viver em um mundo desumanizante.

Isso não significa que devamos agora descurar das ameaças ambientais. Mas se nossa preocupação é com a sustentabilidade das organizações humanas que fazem parte da sociedade – como as empresas – os fatores propriamente humanos e sociais devem ter um peso tão decisivo quanto (ou até mais decisivo que) os fatores naturais (ambientais), não?

Aquilo que devemos preservar é, justamente, o que pode nos preservar como sociedade tipicamente humana. Cooperação, voluntariado, redes e democracia são os elementos da nova criação humana – e humanizante – do mundo, que lograram se configurar como padrões de convivência social, que vale realmente a pena preservar. E são esses os elementos que podem garantir a sustentabilidade das sociedades humanas e das organizações que a compõem.

Sábado, 14 de Junho de 2008

AGORA SÓ FALTAM 4 DIAS

MINHA TORCIDA

O GFAL começa na próxima quarta-feira. Estou torcendo (e muitos comigo), para que:

1) Reafirmemos os Princípios do Global Compact para a educação executiva de alto nível, mas não fiquemos no principismo declaratório, procurando converter as almas por meio do proselitismo em prol da sustentabilidade.

2) Não reduzamos a problemática sistêmica da sustentabilidade ao seu aspecto ambientalista, criando qualquer tipo de corrente para salvar o Planeta. O Planeta, felizmente, não está em risco. Nem mesmo a vida no Planeta - a biosfera - está em risco. As longas linhagens de seres vivos que surgiram antes de nós, continuarão muito depois de nós. Quem pode entrar em risco se não mudarmos de atitude é a espécie humana e, por decorrência, a sociedade humana, as organizações humanas, os padrões de interação social e os valores humanos que construimos e tanto prezamos.

3) Encaremos a vida como um valor principal, mas não o único: certos padrões de convivência social, além da vida (biológica) – como a cooperação ampliada socialmente (o chamado capital social) ou a vida em comunidade, as redes voluntárias de participação cidadã e a democracia na base da sociedade e cotidiano do cidadão – também constituem um valor inegociável, quer dizer, um valor que não pode ser trocado pelo primeiro. Em outras palavras, não podemos esquecer tudo isso para nos dedicarmos agora somente a tentar retardar o desaparecimento biológico da espécie. Não vale ser salvo da destruição para viver em um mundo desumanizante.

4) Compreendamos que uma reforma da educação empresarial deva ser pautada não pelos critérios de lucratividade. Para a atividade empresarial, lucro deve ser uma obrigação, não um objetivo. E que, portanto, os critérios a partir dos quais devemos reformar os currículos e os processos de educação executiva de alto nível devem ser muito mais abrangentes, enfrentando de uma maneira sistêmica os desafios da sustentabilidade colocados para as empresas neste dealbar do século 21.

5) Tomemos consciência de que enfrentar os desafios da sustentabilidade é a única maneira de aumentar a garantia de futuro. Em outras palavras, a empresa que quiser ter futuro deve se preocupar, no presente (agora, não depois; hoje, não amanhã), com os quatro desafios seguintes:

I - Induzir o desenvolvimento (da empresa e do meio em que a empresa atua, elaborando, articulando e executando programas de sustentabilidade).

II - Fazer a gestão democrática da rede dos seus stakeholders (iniciando a transição do seu padrão de organização – de mainframe para network – e democratizando progressivamente seus procedimentos internos e externos).

III - Promover o voluntariado em torno de uma causa.

IV - Exercer de uma nova maneira a sua responsabilidade social e assumir a sua responsabilidade política.

São os meus votos, faltando apenas 4 dias para o início do GFAL.

Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

FALTAM 5 DIAS

Sim, no dia 18 começa o Global Fórum América Latina. Neste blog procurei colocar alguns artigos e muitas questões importantes para uma outra visão da sustentabilidade. Até agora o enfoque tem sido predominantemente ambiental. Mas sustentabilidade é um conceito sistêmico, envolvendo todas as dimensões do desenvolvimento: econômica, social, cultural, físico-territorial e ambiental, político-institucional e científico-tecnológica.

Se você quiser conhecer uma abordagem sistêmica da sustentabilidade, por favor comece a ler este blog de baixo para cima, começando pelo seguinte artigo.

Mas para entrar em contato com um tratamento mais exaustivo da questão, dê uma olhada no blog Responsabilidade Social e Sustentabilidade. Depois me diga se valeu a pena.

Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

FALTAM 6 DIAS...

Uma notícia importante. Estão vindo da Espanha, para participar do GFAL, da Pós-Conferência Aberta Redes Sociais e Sustentabilidade e do Segundo Encontro com David de Ugarte, os seguintes especialistas:

1) David de Ugarte (SIE)
2) Alexandre Girard (SIE)
3) Arnau Fuentes (SIE)
4) Carlos Cilveti (BBVA)
5) Fernando Summers (BBVA)
6) Marcos Menendez (SIE)
7) Maria Rodriguez (SIE)
8) Mercedes Egido (SIE)
9) Natália Fernandez (SIE)

Com exceção de David de Ugarte, todas essas pessoas estão sendo bancadas pela Sociedad de las Indias Electrónicas (SIE) ou pelo Banco Bilbao-Vizcaya (BBVA). Um exemplo notável de parceria, em prol da fundação da Escola-de-Redes.

Quarta-feira, 11 de Junho de 2008

FALTAM 7 DIAS PARA O GFAL E PARA A PÓS-CONFERÊNCIA REDES SOCIAIS E SUSTENTABILIDADE

A contagem regressiva agora sofre aquela natural aceleração da reta final. Uma semana para o início do Global Forum. E menos de dez dias para a Pós-Conferência Aberta Redes Sociais e Sustentabilidade, que começará às 19 horas do dia 20 de junho.

Juan Urrutia, está com problemas de saúde e foi desaconselhado de viajar pelos médicos (pode ser que ainda venha, mas não é certo). David de Ugarte está confirmadíssimo. Ele virá com Natália Fernandes, sócia-fundadora da Sociedad de las Indias Electrónicas e com vários membros da equipe dessa empresa inovadora.

Também estarão presentes vários especialistas em redes sociais do Brasil, como Cássio Martinho, autor de “Redes: uma introdução às dinâmicas da conectividade e da auto-organização” (Brasília: WWF-Brasil, 2003).

Virá também o Marcelo Estraviz, escultor do conceito de linkania (o sucedâneo de cidadania na sociedade-rede).

E muitos outros.

Depois da Pós-Conferência Aberta Redes Sociais e Sustentabilidade, no dia seguinte (sábado, 21 de junho, das 09:00 às 18:00), teremos o Segundo Encontro com David de Ugarte, nos arredores de Curitiba, apenas para convidados. Se você está interessado em trabalhar com redes sociais, do ponto de vista teórico ou prático, envie um e-mail para mim. Restam apenas 3 vagas para esse segundo encontro reservado.

augusto@augustodefranco.com.br

Terça-feira, 10 de Junho de 2008

FALTAM 8 DIAS PARA O GFAL

ENTRAMOS ENTÃO NA RETA FINAL.

Passei em viagem os últimos dois dias. Volto amanhã.

Domingo, 8 de Junho de 2008

FALTAM 10 DIAS

Olá pessoal! Agora só faltam dez dias para o Global Forum. Mas vejo com alegria que nossa blogosfera já tem quase 20 blogs, agregados pelo feevy em http://gfal.blogspot.com

Falta agora instalarmos o feevy em cada um de nossos blogs (inclusive este aqui). E começar a interagir de verdade.

É provável que a blogosfera não funcione muito antes do encontro. Mas depois, certamente, será um espaço importante de interação.

Sábado, 7 de Junho de 2008

FALTAM 11 DIAS

Faltam 11 dias apenas para o Global Forum América Latina. E também para um outro evento muito importante que ocorrerá na seqüencia dos trabalhos do GFAL: a Pós-Conferência Aberta Redes Sociais e Sustentabilidade, sob a coordenação de Rodrigo Loures, com a minha participação e de mais dois palestrantes internacionais convidados Juan Urrutia e David de Ugarte:






A Pós-Conferência Aberta Redes Sociais e Sustentabilidade, ocorrerá no dia 20 de junho, a partir das 19 horas. A entrada é franca, mas as vagas são limitadas.

Durante o evento será lançada a Escola-de-Redes, uma iniciativa internacional que congrega pessoas dedicadas à investigação teórica e à disseminação de conhecimentos sobre redes sociais e à criação e transferência de tecnologias de netweaving, que terá um primeiro nodo no Brasil na cidade de Curitiba.


Quem são os conferencistas?

Juan Urrutia Elejalde, nasceu em 1944, em Bilbao, na Espanha. É catedrático de Fundamentos de Análise Econômica. Na década passada foi conselheiro do Banco Bilbao-Vizcaya, onde teve oportunidade de aplicar seus conhecimentos econômicos no mundo empresarial. É também fundador de duas empresas tecnológicas: PiensaenRed e Sociedad de las Indias Electrónicas. Dentre suas numerosas obras cabe destacar aqui “El Capitalismo que viene”, que explora o impacto sobre o comportamento do homo economicus, sobre as instituições básicas do sistema (propriedade privada, empresa, mercado e Estado) e sobre seu funcionamento, que está tendo a globalização, a importância crescente do conhecimento e as novas tecnologias de informação e comunicação.

David de Ugarte nasceu em 1970, na Espanha. Foi professor de Economia das Organizações na Universidade Carlos III de Madri e atualmente é um dos principais articuladores da empresa inovadora Sociedad de las Índias Electrónicas, sucessora de PiensaemRed – a primeira empresa européia desenvolvedora de software para PDA, do primeiro moblog do mundo e da primeira rede wifi da Espanha. A Sociedad de las Índias Electrónicas, a primeira empresa que teve um blog, é a criadora do feevy (www.feevy.com), um sistema agregador de blogs. Publicou “11M: Redes para ganar uma guerra” e “El Poder de las Redes”. Atualmente está acabando a edição do seu terceiro livro “De las naciones a las redes”, escrito juntamente com Pere Quintana, Enrique Gómez e Arnau Fuentes e que aparecerá nas livrarias espanholas no outono de 2008.

Augusto de Franco nasceu em 1950, no Rio de Janeiro. Foi membro do Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária, juntamente com Ruth Cardoso e Miguel Darcy e coordenador da AED – Agência de Educação para o Desenvolvimento. Elaborou várias tecnologias de desenvolvimento, como o DLIS – Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável, a Governança Solidária Local e o Pacto pela Democracia Local. É consultor da FIEP para a Rede de Participação Política do Empresariado, escritor, desenvolvedor de Nan Dai e um dos netweavers da Escola-de-Redes. Publicou 16 livros sobre desenvolvimento, redes sociais e democracia, dentre os quais destacam-se “Capital Social”, “A Revolução do Local” e “Alfabetização Democrática”.

Rodrigo da Rocha Loures, nasceu em Curitiba. Foi professor de Administração da UFPR e PUC/PR. Em 1968 fundou a Nutrimental, empreendimento nascido das pesquisas de alimentos da UFPR, numa das pioneiras experiências de cooperação entre universidade e empresa do país. Atualmente ocupa a presidência da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP), é vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), onde preside o Conselho de Política Industrial e Desenvolvimento Tecnológico (COPIN), integra o CDES, o Conselho Deliberativo da ABDI, o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT) e o Conselho Diretor do FNDCT. É um dos 20 fundadores da FBDS, participante da WBA, membro do Global Compact da ONU, da Society for Organizacional Learning (SOL) e do Instituto ETHOS.


LANÇAMENTO DA ESCOLA-DE-REDES

Entre os grandes desafios colocados para o setor empresarial neste início do século 21, o desafio da sustentabilidade é o principal. Ele exige que a empresa atue como agente de desenvolvimento, que saiba fazer a gestão da sua rede de stakeholders – mudando seu padrão de organização – de mainframe para network – e democratizando progressivamente seus procedimentos internos e externos, que tenha uma causa para promover o voluntariado e que aprenda a articular politicamente não apenas seus interesses, mas também a sua causa, exercendo de uma nova maneira a sua responsabilidade social e assumindo para valer a sua responsabilidade política.

Enfrentar tais desafios da sustentabilidade pode ser, de acordo com o que será discutido na Pós-Conferência Aberta Redes Sociais e Sustentabilidade, a única maneira de aumentar a garantia de futuro. Sustentabilidade (ou desenvolvimento, em uma visão sistêmica), é sempre a operação de uma rede de co-desenvolvimentos interdependentes. Para alcançar sustentabilidade a empresa deve fazer uma gestão adequada da rede de seus stakeholders, voltada ao seu próprio desenvolvimento e ao desenvolvimento do mundo onde ela e seus parceiros atuam. O que se chama de desenvolvimento é algo que acontece em rede. Daí a importância, para o setor empresarial, da primeira Escola-de-Redes que está sendo inaugurada nas Américas, cuja sede no Brasil será em Curitiba.

Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

UM DEBATE QUE ESTÁ ROLANDO NA REDE EMPRESARIAL

Sobre as relações entre responsabilidade social e sustentabilidade empresarial

No dia 20 de junho de 2008, logo após o encerramento oficial do Global Fórum América Latina, que ocorrerá no CIETEP, em Curitiba a partir do dia 18, haverá a Pós-Conferência Redes Sociais e Sustentabilidade, com a participação de Juan Urrutia, David de Ugarte e Augusto de Franco. A mesa será coordenada por Rodrigo Loures.

Várias idéias importantes estarão em debate neste evento. Adianto aqui as discussões que pretendo propor aos outros palestrantes e aos participantes.

Uma empresa deve exercer de uma nova maneira a sua responsabilidade social se quiser trilhar o caminho da busca da sustentabilidade. Uma empresa não pode conquistar sua sustentabilidade apenas por razões empresariais, econômicas, de mercado e, portanto, deve atuar em outros setores, regidos por outras lógicas ou por outras racionalidades. Em outras palavras, a dinâmica competitiva (própria do chamado segundo setor) é necessária, mas não é suficiente quando o assunto é sustentabilidade (exigindo que se incorpore também, no processo de conquista da sustentabilidade, outras dinâmicas, cooperativas e normativas). Mas por quê?

A explicação é bem simples. Nenhuma empresa consegue, ao mesmo tempo, produzir todos os capitais de que precisa e se manter economicamente viável no curto e no longo prazos.

Parte considerável do capital natural, do capital humano e do capital social que a empresa utiliza em seus processos produtivos ou econômicos já deve estar no ambiente em que a empresa existe. No tocante ao capital natural, por exemplo, alguns desses recursos (como o ar atmosférico) ainda não têm custo, mas outros (como a água doce, os recursos minerais e ambientais de um modo geral) já têm. Para o processo econômico ser viável é necessário que esses custos sejam compatíveis com o preço de mercado dos produtos ou serviços da empresa. É mais difícil montar uma empresa de produtos biológicos no deserto de Atacama do que em Santiago do Chile.

No tocante ao capital humano, é quase a mesma coisa. Parte do capital humano que a empresa utiliza não foi formada por ela e sim pelos sistemas público e privado de ensino e pelos esforços de auto-aprendizado dos indivíduos. Tudo isso foi pago com recursos dos cidadãos (via receita fiscal, pelo Estado e pela poupança e salário das famílias). Se uma empresa fosse pagar pela formação de todo capital humano que utiliza, ficaria inviável economicamente.

Além disso, uma empresa precisa ter condições favoráveis para substituir seus colaboradores (que falecem, ficam doentes ou mudam de emprego) sem ter que fazer para isso grandes investimentos. Se na região onde a empresa está sediada o capital humano é muito baixo, os custos de recrutamento e substituição de funcionários aumentarão perigosamente. É mais difícil montar uma empresa de software em Maceió do que em Palo Alto ou Santa Clara, no Vale do Silício, na Califórnia.

Ocorre que a educação não é o único componente do capital humano. Temos também a saúde (e a alimentação, e a nutrição). Imaginem se uma empresa fosse responsável por prover ou suprir – com seus próprios recursos – todos esses itens.

No que diz respeito ao capital social, tudo fica ainda mais evidente. Empresas localizadas em sociedades pouco cooperativas têm enormes problemas. Seus custos de transação vão para o espaço. Freqüentemente essas empresas se vêem envolvidas em toda sorte de conflitos com seus colaboradores, fornecedores, clientes e com as populações que vivem nessas localidades. Para mediar esses conflitos, as empresas gastam tempo e outros recursos preciosos que deveriam estar sendo empregados em seus processos de gestão, produção, pesquisa e desenvolvimento (inovação).

O mesmo ocorre com empresas situadas em países onde a segurança jurídica é baixa ou a instabilidade regulatória é muito alta. Empresas nessas condições têm que manter um imenso contencioso de advogados e, não raro, têm que subornar autoridades (parlamentares, governantes, juízes e promotores) para poder se ver livres de processos judiciais ou para poder desembaraçar trâmites burocráticos desnecessários e atender a outras exigências normativas abusivas. Tudo isso, é claro, aumenta a margem de incerteza de investimentos externos que poderiam ser atraídos pelas empresas. Não é por acaso que quem tem 1 milhão de dólares para investir em uma atividade produtiva prefira fazê-lo no Japão, na Islândia, no Canadá ou na Nova Zelândia e não na Bolívia, no Equador, na Nicarágua ou na Venezuela.

Além da insegurança jurídica, também pesa excessivamente no custo da empresa a insegurança pública, por motivos óbvios. Mas segurança pública não depende apenas de uma boa atuação do Estado. Ela depende dos padrões de convivência social e, portanto, reflete diretamente o nível do capital social. Nenhum investidor gostaria de abrir seu novo negócio na Faixa de Gaza; ou mesmo – dependendo do tipo de negócio – em certos bairros do Rio de Janeiro.

Quanto ao capital social, uma empresa sozinha pode fazer menos ainda do que em relação ao capital humano (cujos baixos níveis podem ser parcialmente compensados por programas de capacitação corporativos). Mas ainda que uma empresa pudesse investir maciçamente, com seus próprios recursos, para produzir todo o capital social de que necessita, mesmo assim isso não seria suficiente. Não é bem da natureza da atividade empresarial produzir esse tipo de recurso. O máximo que uma empresa pode fazer é tentar aumentar o seu capital social interno, promovendo métodos de gestão que requeiram iniciativa individual, empreendedorismo coletivo e protagonismo de seus colaboradores. E, fundamentalmente, introduzindo padrões de organização em rede e modos de regulação democráticos dentro da organização.

Ocorre que o capital social flui de um âmbito (público-social) que é maior do que a empresa (privada). Ele é um ambiente sobre o qual a empresa não tem autonomia para interferir sozinha. Uma empresa só poderá fazer isso se estiver aliada a uma parte da sociedade civil – aos cidadãos e suas organizações – da localidade onde está situada.

Portanto, quando se diz que a empresa deve investir no social, isso significa que ela deve investir no capital social da sociedade. Porque a chamada sociedade civil é a única forma de agenciamento capaz de produzir superávits de capital social, ou seja, é o único setor que produz mais capital social do que consome. São esses excedentes de capital social, gerados no ambiente em que a empresa está imersa, que podem ser importados pela empresa a baixo custo, desde que a empresa tenha os canais adequados para tanto. Esses canais são as relações que a empresa conseguiu estabelecer com a sociedade por meio do exercício da sua responsabilidade social. Por eles poderão fluir, tanto o capital humano quanto o capital social de que a empresa precisa, mas que, sozinha, não pode produzir totalmente.

Pode-se ver, sem grande dificuldade, que a explicação faz sentido. Uma empresa que se aliou à comunidade por meio do exercício da sua responsabilidade social será tratada de modo diferente pelo público. Suas múltiplas alianças, estabelecidas com lideranças da sociedade civil, com governos e outras instâncias estatais, a propósito desse trabalho, ao possibilitarem uma interação menos conflitiva e adversarial com as populações, serão capazes de reduzir os famosos custos de transação. E, muito além disso, abrirão novas possibilidades de negócios ou de novos modos de fazer negócios, fortalecendo aquela que será a unidade empresarial do futuro (uma comunidade formada dentro da rede de stakeholders).

É claro que existem maneiras mais eficazes e menos eficazes de fazer isso. Se uma empresa exerce sua responsabilidade empresarial doando cadeiras de rodas para a população, o efeito sistêmico de sua atuação em termos do incremento do capital social será muito pequeno (ou, em alguns casos, poderá até ser negativo: se ela só fizer isso de modo assistencialista, por exemplo). Mas se a empresa investe no ambiente como um todo, lançando mão de programas inovadores de investimento em capital social, como os programas de indução do desenvolvimento local ou setorial, aí os resultados da sua atuação serão bem mais expressivos.

Espero que você possa participar desse debate que ocorrerá na Pós-Conferência Redes Sociais e Sustentabilidade.

Para acompanhar ou participar do debate clique aqui.

FALTAM 12 DIAS

Sim, agora só faltam 12 dias para o Global Forum América Latina. Tirando o marketing - legítimo - das instituições que o promovem, qual é mesmo o nosso objetivo?

Estimular um aggiornamento da educação executiva de alto nível tendo em vista os grandes desafios da sustentabilidade colocados para as empresas neste dealbar do século 21? Mas como fazer isso?

Fazendo discursos éticos sobre a sustentabilidade? Tentando emprenhar as pessoas pelo ouvido? Fazendo as pessoas seguirem um conjunto de princípios (como os do Global Compact para a educação empresarial)?

Como separar o proselitismo marqueteiro da sustentabilidade - o tema da moda - das medidas concretas para constelar condições favoráveis à sua conquista por parte das organizações?

Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

LOGO DA ESCOLA-DE-REDES

Eis um estudo - feito pelo pessoal da Sociedad de las Indias Electrónicas - para o logo da Escola-de-Redes, cujo nodo no Brasil será lançado no próximo dia 20, em Curitiba. Que tal?





Escola-de-Redes é uma rede de pessoas dedicada à investigação teórica e à disseminação de conhecimentos sobre redes sociais e à criação e transferência de tecnologias de netweaving.


A Escola-de-Redes será lançada durante a pós-Conferência "Redes Sociais e Sustentabilidade", que ocorrerá após o encerramento do GFAL, no CIETEP, das 19:00 às 22:00. A mesa será composta por Rodrigo Loures, Juan Urrutia, David de Ugarte e Augusto de Franco.

Trata-se de uma conferência aberta, com entrada livre. Todos estão convidados.

FALTAM 13 DIAS PARA O GFAL

Com que então faltam apenas 13 dias para o Global Forum América Latina?!

Neste blog comecei a colocar algumas idéias para animar o debate preparatório ao encontro. Com a natural correria dos preparativos, praticamente não houve debate. Isso não significa que perdemos tempo organizando a blogosfera GFAL - que está no endereço http://gfal.blogspot.com - pois ela poderá ser muito útil nos desdobramentos do evento.

Acabei, entretanto, de detectar um problema nos meus múltiplos registros no Blogger. Assim, é possível que este blog seja interrompido em algum momento. Os que quiserem acessar o conteúdo armazenado aqui devem se dirigir para http://responsus.blogspot.com, onde há uma publicação mais organizada dos textos que postei aqui (inclusive da maior parte das questões propostas ao debate).

Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

FALTAM 14 DIAS PARA O GFAL

Pulei um dia nesta contagem regressiva. A culpa é do sistema aeroportuário brasileiro (a Infraero diz que são as condições metereológicas adversas no Sul do Brasil, mas isso não é totalmente verdadeiro: se tivessem investido em segurança e em equipamentos de vôo às cegas ao invés de querer transformar - sem sucesso, diga-se - os aeroportos em shoppings, talvez não ficássemos submetidos a tanta confusão quando cai uma chuvinha).

Bom, mas vamos ao nosso assunto. A partir de hoje não vou apresentar mais questões para reflexão (sobretudo porque quase ninguém está tendo tempo - e, em alguns casos, interesse - de refletir sobre elas. Temos já aqui um elenco considerável de questões-chave para as empresas que quiserem entrar no caminho da conquista da sua sustentabilidade. E isso pode ajudar a rever o conteúdo curricular e os métodos utilizados nos processos atuais de educação empresarial de alto nível (que é o tema do GFAL).

Aproveito para dizer que essa idéia de juntar empresários e acadêmicos - com uma ênfase meio ridícula em PHDs: as árvores se conhecem pelos seus frutos, não pelos certificados de origem das mudas ou sementes - como caminho para uma reforma da educação empresarial, é interessante mas não pode ser tomada assim tão ao pé da letra. Na verdade temos que juntar com os empresários quem está trabalhando no assunto, quem está produzindo e, sobretudo, quem está ensaiando experiências concretas em busca da sustentabilidade (não importa para nada se esses pioneiros são doutores, mestres, professores universitários - o importante é que sejam investigadores consistentes e experienciadores (corajosos!) de alternativas).

Neste blog coloquei algumas reflexões que venho desenvolvendo e aplicando (em cursos para empresários) ao longo dos últimos três anos. Para conhecer meu ponto de vista, por favor, leia os textos publicados aqui de baixo para cima. Comece pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

FALTAM 16 DIAS...

Pois é... Faltam apenas 16 dias.

Domingo, 1 de Junho de 2008

FALTAM 17 DIAS PARA O GFAL

Faltam apenas 17 dias para o GFAL (contando sábados e domingos). E agora? Está tudo pronto? Existe uma "massa crítica" de pessoas discutindo os grandes temas do evento? Ou será que cada um vai chegar para "vender seu peixe" na hora H?

Tenho procurado contribuir com o debate preparatório ao encontro, propondo neste blog, além de questões relacionadas à sustentabilidade e ao exercício da responsabilidade corporativa, também alguns fundamentos. Veja abaixo. E leia, por favor, de baixo para cima, começando pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

Bem, as questões de hoje são as seguintes:

40 – Para que possa se desenvolver, em quaisquer circunstâncias, uma empresa depende, dentre inumeráveis outros fatores, sempre de dois fatores: o capital humano e o capital social existentes nos ambientes das suas relações externas. Sim ou não? Se você disse sim, escolha a(s) melhor(es) alternativa(s):
I - O desempenho da organização também depende do capital humano e do capital social que está no ambiente no qual ela se relaciona. Uma organização imersa em um ambiente que apresente níveis baixíssimos de capital humano e de capital social terá imensas dificuldades para se desenvolver, mesmo que seus estoques próprios desses "capitais" sejam volumosos e de boa qualidade – o que seria um caso raro, uma vez que as pessoas que constituem uma organização em geral integram outras instituições que compõem o ambiente externo da organização.
II - Quanto mais relações interorganizacionais intersetoriais a organização mantiver, mais condições ela terá de se aproveitar do capital humano e do capital social existentes no meio exterior.
III - Um efeito benéfico do meio sobre a organização só acontecerá quando as relações estabelecidas entre a organização e o meio forem relações de parceria – quer dizer, relações cooperativas, em rede e democráticas. E, além disso, se forem relações que estimulem os parceiros a exercitarem seu empreendedorismo, ou seja, se forem articuladas em torno de um programa inovador.
IV - Relações interorganizacionais de parceria são relações de mão dupla. Nesse tipo de relação, ambos os parceiros ganham e a organização não poderá auferir nenhum efeito benéfico do meio se ela também não beneficiar o meio.
a) I e II
b) III
c) III e IV
d) I, III e IV
e) I, II, III e IV
f) Nenhuma das alternativas anteriores.

41 – Uma empresa não pode auferir os efeitos benéficos do meio – em termos de incorporar capital social proveniente das suas relações externas – (e não beneficiará o meio) se... (Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Se essas relações forem baseadas no padrão de jogo ganha-perde (o outro tendo que perder para que a gente possa ganhar ou vice-versa).
II - Se essas relações forem verticais, de subordinação dos outros a nós (ou de nossa sujeição aos outros).
III - Se essas relações forem baseadas em modos violentos ou coercitivos de regulação dos conflitos que porventura possam surgir (fazendo valer a nossa força para dizer o que os outros devem ou não devem fazer a partir da nossa vontade ou sendo submetidos à vontade alheia contra as nossas opiniões e interesses).
a) I
b) II
c) III
d) I e II
e) I e III
f) I, II e III
g) Nenhuma das alternativas anteriores.

Sábado, 31 de Maio de 2008

FALTAM 18 DIAS...

Na verdade faltam apenas 11 dias úteis para o Global Forum América Latina (GFAL).

Neste blog tenho procurado colocar questões que provoquem a reflexão sobre os temas centrais do encontro. Leiam, por favor, de baixo para cima, começando pelo post ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

As questões de hoje são as seguintes:

36 – Do ponto de vista do capital social, a criação de um ambiente interno favorável ao desenvolvimento da organização depende de que fatores ou circunstâncias? (Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Da maneira como as pessoas convivem – as emoções e as razões (extra-econômicas) pelas quais permanecem juntas naquela organização.
II - Da forma como as pessoas se relacionam.
III - Do modo como as pessoas regulam seus conflitos e se conduzem coletivamente.
a) I
b) II
c) III
d) I e II
e) II e III
f) I e III
g) I, II e III
h) Nenhuma das alternativas anteriores.

37 – Uma organização capaz de se desenvolver existe como tal na medida em que... (Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - As pessoas que a constituem tenham um propósito convergente, compartilhem valores e crenças e formem algum consenso em torno de objetivos e metas. Em outras palavras, uma organização capaz de se desenvolver existe na medida em que as pessoas nela envolvidas tenham um projeto comum e uma causa.
II - As pessoas aceitem conviver (ou pelo menos coexistir) – o que implica algum grau de respeito à autonomia e alguma disposição de aceitação das diferenças. Em outras palavras, a organização existe na medida em que haja aceitação do outro. Isso, antes de ser fruto de um cálculo racional, é a manifestação de uma emoção que permite a presença do outro no nosso próprio espaço de vida.
III - As pessoas se relacionem de uma determinada maneira estável, exercitando a complementaridade e a parceria e, enfim, que sejam, de algum modo, interdependentes.
IV - Todas as alternativas acima estão corretas porquanto a combinação ou incidência simultânea de capacidade de construir projetos comuns, aceitação do outro e dinâmica de interdependência tem um nome: chama-se ‘cooperação’. E, do ponto de vista do capital social, a cooperação é o primeiro fator para a criação de um ambiente interno favorável ao desenvolvimento da organização.
a) I
b) II
c) III
d) IV
e) I e II
f) II e III
g) III e IV
h) Nenhuma das alternativas anteriores.

38 – Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s):
I - A cooperação, que faz as pessoas permanecerem juntas em uma mesma organização, além do salário que recebem ou do lucro que auferem, não pode se instalar, se ampliar e se reproduzir na organização como um todo se as pessoas se relacionam apenas de maneira vertical, piramidal, em uma cadeia de subordinação, cada uma sempre dependendo de outra para fazer qualquer coisa.
II - Padrão vertical de organização, subordinação e dependência impedem a geração, a acumulação e a reprodução do capital social. Para que o capital social possa ser gerado, acumulado e reproduzido, é necessário que as pessoas se conectem, umas com as outras, segundo um padrão horizontal de organização, que não sejam em tudo sempre subordinadas umas às outras e que sejam interdependentes em vez de dependentes.
III - A capacidade de estabelecer ligações entre os seus membros dá a medida da conectividade interna da organização. Se essas relações forem horizontais, teremos uma conectividade horizontal que enseja a circulação da informação, dissolvendo os núcleos burocráticos baseados no segredo e favorecendo a desconcentração do saber.
IV - A conectividade horizontal, combinada com a interdependência, leva as pessoas a estabelecerem relações de parceria entre si em vez de ficarem o tempo todo possuídas pela preocupação de "quem vai mandar em quem". Conectividade horizontal e interdependência conduzem à autonomia das pessoas e não à subordinação. Além disso, assim como para haver cooperação, é necessário que as pessoas compartilhem valores e objetivos comuns, ou seja, que tenham um projeto comum.
V - Não se pode criar um clima interno favorável ao desenvolvimento se as pessoas não participam voluntariamente de ações conjuntas. E isso elas só farão na medida em que compreendam que estão compartilhando um (mesmo) projeto ou uma causa.
VI - A participação leva ao aparecimento de múltiplos líderes. Em cada atividade conjunta, participada voluntariamente, emergem líderes espontaneamente. Isso cria uma rica diversidade de iniciativas e de pessoas dispostas a assumir responsabilidades, o que contribui para uma desconcentração do poder.
a) I
b) I e II
c) I, II e III
d) I, II, III e IV
e) I, II, III, IV e V
f) I, II, III, IV, V e VI
g) Nenhuma das alternativas anteriores.

39 – Uma organização capaz de se desenvolver existe como tal na medida em que... (Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Exista projeto comum, conectividade horizontal e interdependência, que levam, através da multiplicação de relações de parceria, à constituição de comunidade.
II - Se instale, dentro da organização, uma cultura de rede, ou seja, uma prática de network (em vez de uma cultura de mainframe) e de networking (de trabalhar em rede em vez de uma prática de concentrar saber e poder para mandar os outros fazerem as coisas que queremos que elas façam por nós).
III - Pessoas possam se conectar horizontalmente com pessoas a partir de normas e valores comuns, por ligações livres (isto é, não impostas por alguém que tem poder e não condicionadas por fatores imunes à vontade do sujeito, como raça e parentesco), e não imediatamente interessadas.
a) I
b) II
c) III
d) I e II
e) II e III
f) I, II e III
g) Nenhuma das alternativas anteriores.

Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

FALTAM 19 DIAS

Na verdade faltam apenas 12 dias úteis, menos de duas semanas, portanto, para o Global Forum América Latina (GFAL).

Neste blog tenho procurado colocar questões que provoquem a reflexão sobre os temas centrais do encontro. Leiam, por favor, de baixo para cima, começando pelo post ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

As questões de hoje são as seguintes:

33 – Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s):
I - O crescimento de uma empresa é a mesma coisa que o seu desenvolvimento porque em uma economia de crescimento, se uma empresa não crescer ela vai ficar para trás e vai ser superada (e no limite inviabilizada) pela concorrência.
II - A única maneira inequívoca de medir o desenvolvimento de uma empresa é verificando o sucesso de seus negócios e esse sucesso só pode ser avaliado em termos do incremento de seus ativos financeiros.
III - Uma empresa pode ser desenvolver sem mudar o seu ambiente interno para se adaptar à mudanças do meio em que atua.
IV - A empresa não é o prédio em que funciona, não são os papéis onde estão escritos seu contrato social e outros documentos, nem os armários onde estes papéis estão arquivados, nem as máquinas e os equipamentos, nem os estoques de matéria-prima, nem suas contas bancárias e suas demais propriedades, marcas ou mesmo as tecnologias que desenvolveu (se não existirem pessoas que saibam acessar, compreender e aplicar tais recursos e tecnologias). A empresa são as pessoas que a constituem e as pessoas que, individualmente ou em grupo, se relacionam com ela.
a) I
b) II
c) III
d) IV
e) I e II
f) III e IV
g) Nenhuma das alternativas anteriores.

34 – Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s):
I - É possível que uma empresa cresça sem se desenvolver. Neste caso, muitas vezes, não precisamos investir no seu capital humano e no seu capital social.
II - O maior capital de uma organização é o seu pessoal: as qualidades de cada uma das pessoas que a constituem e o modo como essas pessoas interagem, dentro e fora da empresa; ou seja, o seu padrão de organização e de relacionamento, interno e externo. Assim, se quisermos que uma empresa se desenvolva temos que investir no seu capital humano e no seu capital social.
III - O desempenho da organização também depende do capital humano e do capital social que está no ambiente no qual ela se relaciona. Uma organização imersa em um ambiente que apresente níveis baixíssimos de capital humano e de capital social terá imensas dificuldades para se desenvolver, mesmo que seus estoques próprios desses "capitais" sejam volumosos e de boa qualidade (o que seria um caso raro, uma vez que as pessoas que constituem uma organização em geral integram outras instituições que compõem o ambiente externo da organização).
IV - O desenvolvimento de uma organização depende sempre das relações que ela estabelece dentro de suas fronteiras e das relações que atravessam essas fronteiras. Ou seja, depende do ambiente interno e do ambiente externo e, sobretudo, das relações que se efetivam entre o que está dentro e o que está fora.
a) I
b) II
c) III
d) IV
e) I e II
f) I, II e III
g) I, II, III e IV
h) Nenhuma das alternativas anteriores.

35 – Uma empresa só pode se desenvolver se conseguir criar um ambiente interno favorável ao desenvolvimento. Sim ou não? Se sim, escolha a(s) alternativa(s) que lhe parece(m) mais correta(s):
I - Um ambiente interno favorável ao desenvolvimento da empresa é aquele que possibilita o aumento da quantidade e/ou da qualidade do seu capital humano e do seu capital social.
II - Um dos principais elementos do capital humano é a capacidade que as pessoas têm de fazer coisas novas, exercitando a sua imaginação criadora – o seu desejo, sonho e visão – e se mobilizando para adquirir os conhecimentos necessários, capazes de permitir a materialização do desejo, a realização do sonho e a viabilização da visão. Ora, isso tem um nome: chama-se ‘empreendedorismo’. Portanto, para ter um ambiente interno favorável ao desenvolvimento, a empresa precisa ter, em primeiro lugar, um ambiente favorável à inovação.
III - Um ambiente favorável à inovação depende de fatores internos e externos. Os fatores internos favoráveis à inovação dependem da liberdade para criar e da ousadia de inventar, o que é função, por sua vez, da cultura empreendedora da organização.
IV - A organização é mais do que a soma das pessoas que a constituem e que se relacionam com ela. A organização é uma realidade social e não apenas multipessoal. Isso significa que a organização não depende apenas do fator humano, mas também do fator social. E isso significa que um ambiente interno favorável ao desenvolvimento, além de ser função do capital humano, é também função do capital social.
a) I
b) II
c) III
d) IV
e) I e II
f) I, II e III
g) I, II, III e IV
h) Nenhuma das alternativas anteriores.

Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

FALTAM 20 DIAS... UMA SUGESTÃO

Faltam apenas 20 dias para o GFAL. Sugiro aos organizadores do evento que enviem uma correspondência a todos os participantes já inscritos e aos potencialmente interessados (isso já deve estar mapeado, pois não?), para que visitem, além do site oficial do evento, o blog agregador dos que - ainda muito timidamente - querem contribuir com o debate preparatório ao encontro.

O endereço do blog é http://gfal.blogspot.com

Entrando no blog indicado acima qualquer pessoa pode ter acesso a todos os blogs dos voluntários que estão querendo participar do debate.

As questões que proponho hoje são um pouco diferentes das anteriores, postadas aqui nesta contagem regressiva:

31 - Como preparar o GFAL para que ele não seja apenas um evento, que termine com uma bela declaração de princípios?

32 - Precisamos reafirmar velhos princípios ou acrescentar novos princípios à lista ou ensaiar práticas realmente inovadoras capazes de aumentar as condições de sustentabilidade de nossas empresas e, consequentemente, inspirar novos conteúdos e novos métodos de educação empresarial?

Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

FALTAM 21 DIAS PARA O GFAL

Agora faltam apenas três semanas. E o debate propriamente dito nem começou... Assim vai ficar difícil preparar o encontro.

Mas prossigo com a contagem regressiva. Neste blog publico minhas contribuições à discussão preparatória do Global Forum América Latina (CIETEP, Curitiba, Paraná, Brasil, 18 a 20 de junho de 2008). Por favor, leia os artigos deste blog de baixo para cima, na ordem inversa de publicação. Comece pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

As questões de hoje são as seguintes:

29 – Se as pessoas não desenvolverem suas habilidades e competências e se as sociedades não empoderarem seus membros para que eles tenham confiança em si mesmos e nos seus semelhantes, coragem para empreender e segurança para inovar, pode haver desenvolvimento? (Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Sim, se houver um crescimento do PIB a altas taxas durante um tempo relativamente longo, pois tal crescimento dinamizará economicamente a sociedade de tal modo que as pessoas serão compelidas a desenvolver suas capacidades para se inserir em um mercado dinâmico e em expansão.
II - Não, porque o desenvolvimento depende de outras variáveis além da renda e, assim, não basta crescer economicamente, aumentando o PIB ou a renda per capita da população, imaginando que todas as outras coisas virão naturalmente em decorrência. (É bem provável que isso possa até alargar o fosso da desigualdade, o que não produzirá desenvolvimento humano nem social sustentável).
III - Não, porque para que a renda produzida se distribua elevando as condições de vida da população é preciso que as pessoas tenham acesso à riqueza, ao conhecimento e ao poder. Assim, é preciso investir no incremento de todos estes fatores.
IV - Não, porque desenvolvimento mesmo só ocorrerá quando surgirem novos e múltiplos laços de realimentação de reforço nas relações entre a renda e as outras variáveis do desenvolvimento, como a riqueza, o conhecimento, o poder; por exemplo, quando mais conhecimento gerar mais poder, que gerar mais riqueza, que gerar mais renda, que gerar mais conhecimento etc.
a) I
b) II
c) III
d) IV
e) II e III
f) II, III e IV
g) Nenhuma das alternativas anteriores.

30 – Pode-se dizer que além da renda e da propriedade produtiva, da riqueza, daquilo que poderíamos chamar de "capital empresarial", existem ainda o "capital humano", o "capital social" e o "capital natural". Quais são os fatores, considerados extra-econômicos, mais decisivos no processo de desenvolvimento? (Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - O capital humano, que se refere mais diretamente ao conhecimento, ao know how e à capacidade de criá-lo e recriá-lo – o que envolve a educação, a saúde, a alimentação e a nutrição, a cultura e a pesquisa, e várias outras áreas, sobretudo, o empreendedorismo. Este é o fator mais decisivo, porque baixos níveis de capital humano indicam baixos níveis de desenvolvimento humano. Faz diferença se temos uma sociedade, como a belga, em que a escolaridade média do trabalhador é de 12 anos ou se temos uma sociedade, como a brasileira, que mal alcança o patamar de 6 anos. Essa diferença é de capital humano.
II - O capital social, que diz respeito aos níveis de organização, de conexão horizontal e de regulação democrática de uma sociedade. Este é o fator mais decisivo, porque existe uma relação direta entre os graus de associacionismo, confiança e cooperação atingidos por uma sociedade democrática organizada do ponto de vista cívico e cidadão e a boa governança e a prosperidade econômica. Tal relação pode ser compreendida como capital social. Baixos níveis de capital social indicam baixos níveis de desenvolvimento social. Faz diferença se temos uma sociedade, como a italiana do norte, entrelaçada na sua base por miríades de instituições de opinião e interesse, ou se temos uma sociedade, como a romena, incipiente do ponto de vista organizacional. Esta diferença é de capital social.
III - O capital natural, que diz respeito às condições ambientais e físico-territoriais herdadas, regeneradas ou (re)construídas. Este é o fator mais decisivo, porque faz diferença plantar nos solos férteis da Ucrânia ou no pampa argentino e no semi-árido do Brasil. Ainda que, se houver desenvolvimento científico-tecnológico, a fruticultura irrigada no semi-árido brasileiro possa vir a ser mais rentável do que uma lavoura tradicional naquelas terras férteis.
IV - Não se pode afirmar que algum dos fatores acima seja mais decisivo do que os outros porque a equação do desenvolvimento relaciona todas essas variáveis de uma maneira ainda desconhecida.
V - Em um certo sentido pode-se afirmar que o capital social é um recurso, senão mais decisivo, pelo menos diferente dos demais porquanto apresenta uma característica mais sistêmica (relativa ao ambiente – ou à rede social – onde ocorre o fenômeno de mudança social que interpretamos como desenvolvimento). Não é à toa que capital social baixo indica baixos índices de desenvolvimento e capital social alto indica altos índices de desenvolvimento (o que não ocorre com os outros capitais econômicos ou extra-econômicos).
a) I
b) II
c) III
d) IV
e) I e II
f) V
g) Nenhuma das alternativas anteriores.

Terça-feira, 27 de Maio de 2008

FALTAM 22 DIAS...

Prossegue a contagem regressiva. Neste blog publico minhas contribuições à discussão preparatória do Global Forum América Latina (CIETEP, Curitiba, Paraná, Brasil, 18 a 20 de junho de 2008). Por favor, leia os artigos deste blog de baixo para cima, na ordem inversa de publicação. Comece pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

As questões de hoje são as seguintes:

24 – O Brasil foi um dos países que experimentaram o maior crescimento econômico em passado recente e, no entanto, foi também um dos países do mundo que mais aumentaram a distância entre crescimento econômico e desenvolvimento social. Por quê? (Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Porque crescemos concentrando e não distribuindo a renda.
II - Porque somente o crescimento não é suficiente para promover o desenvolvimento, uma vez que, se o PIB aumentar, a renda tenderá a permanecer concentrada enquanto a riqueza, o conhecimento e o poder não forem mais bem distribuídos.
III - Porque para que a renda produzida se distribua elevando as condições de vida da população é preciso que as pessoas tenham acesso à riqueza, ao conhecimento e ao poder. Assim, é preciso investir simultaneamente no incremento de todos estes fatores.
a) I
b) I e II
c) II e III
d) I e III
e) I, II e III
f) Nenhuma das alternativas anteriores.

25 – Quando falam em desenvolvimento, as pessoas imaginam logo que se trata de um processo para aumentar a prosperidade econômica de uma sociedade – em geral de um país – que, então, ao se desenvolver, ficaria mais rico. Assim, concluem que o desenvolvimento tem a ver com o conjunto da atividade econômica, que passaria a gerar mais riqueza. O que podemos fazer para promover o desenvolvimento? (Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Investir em fatores como: infra-estrutura pública de apoio para empreendimentos produtivos; crédito e linhas especiais de financiamento.
II - Fornecer incentivos fiscais.
III - Investir em qualificação da mão-de-obra.
IV - Promover a desburocratização e aumentar a capacidade gerencial.
V - Construir um ambiente legal e sistemas de governança, de proposição e aprovação de leis e de distribuição de justiça que facilitem a atividade empresarial, dêem segurança aos investidores e diminuam os custos de transação.
VI - Promover e manter estabilidade monetária e responsabilidade fiscal.
VII - Manter um estoque suficiente de reservas internacionais e política econômica estimuladora de crescimento (sobretudo no que tange ao câmbio e aos juros).
VIII - Prover sistemas de comercialização e celebrar acordos de comércio que protejam os mercados e os produtos internos e possibilitem a colocação desses produtos, com vantagens competitivas, em mercados externos, normas alfandegárias e sanitárias que facilitem a importação e a exportação etc.
IX - Todas as afirmativas acima estão corretas, no entanto, elas não significarão necessariamente desenvolvimento se não redundarem em um aumento da capacidade das pessoas para que elas possam superar problemas e aproveitar oportunidades, exercitando seu empreendedorismo.
X - Todas as afirmativas acima estão corretas, no entanto, elas não significarão necessariamente desenvolvimento se não redundarem na construção de ambientes sociais favoráveis ao florescimento dos negócios, ou seja, na articulação de redes que encorajem as pessoas, individual e coletivamente, a exercitar sua criatividade, gerando novas soluções.
a) I, II, III, IV, V, VI, VII e VIII
b) IX
c) X
d) IX e X
e) Nenhuma das alternativas anteriores.

26 – Para promover um crescimento do PIB a altas taxas e durante um tempo suficiente para desencadear o desenvolvimento, o que não devemos fazer? (Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Manter a inflação alta, o ágio alto no mercado paralelo e déficits orçamentários altos.
II - Adotar taxa de juro real fortemente negativa, restrições ao livre comércio e excessiva regulamentação.
III - Implementar políticas industriais que subvencionem algumas indústrias em detrimento de outras.
IV - Manter serviços públicos precários (energia elétrica, linhas telefônicas, rodovias e outras vias e portos, saúde, água, esgotos, irrigação, serviços postais, saneamento básico e educação) ou interferir demasiadamente no setor privado que oferece tais serviços.
V - Descumprir as leis – sobretudo a partir dos governos – e tolerar a corrupção.
VI - Desrespeitar contratos ou permitir a instabilidade regulatória (tanto no que diz respeito à adoção de um marco legal inadequado, insuficiente ou excessivo, quanto no que tange à sua aplicação ineficaz pelo judiciário) e altas doses de poder discricionário dos governos sobre pessoas físicas e jurídicas.
VII - Alimentar uma grande burocracia, sobretudo se composta por indicações políticas e não por mérito.
VIII - Ter bancos centrais dependentes de orientações político-partidárias, quer dizer, de governos de um partido ou, mesmo, formados a partir de coligações político-partidárias.
IX - Adotar políticas públicas que punam a aquisição de renda, criando incentivos negativos para que as pessoas tomem a iniciativa de gerar renda (como, por exemplo, aplicando programas assistencialistas e clientelistas).
X - Manter governos autocráticos ou autoritários ou democracias formais com alto grau de antagonismo social ou étnico.
XI - Enfraquecer a sociedade civil.
XII - Dificultar a emergência de uma classe média vigorosa.
XIII - Permitir a conformação de um ambiente institucional e de um “clima” nos negócios que desestimule ao invés de atrair o investimento estrangeiro direto e a importação de máquinas, de pessoas empreendedoras e de cérebros inovadores.
XIV - Desestimular o empreendedorismo, dificultar a abertura, o funcionamento e o fechamento de empresas e desincentivar a inovação tecnológica.
XV - Conviver com um alto grau de desigualdade.
XVI - Todas as alternativas acima estão corretas.
XVII - Mesmo se não fizermos nada disso, não fica garantida a ocorrência do “espetáculo do crescimento”, porque nada disso garante a combinação sinérgica dos vários fatores (muitos dos quais desconhecidos) capazes de promover tal espetáculo.
a) I a XV
b) XVI
c) XVII
d) XVI e XVII
e) Nenhuma das alternativas anteriores.

27 – Em relação à questão anterior (Questão 26), escolha a(s) melhor(es) alternativa(s):
I - A resposta correta é a ‘c, até porque sempre podem acontecer imprevistos que desarrumem tudo, uma vez que, a rigor, todas as economias contemporâneas são instáveis e dependem de fatores sobre os quais não se tem controle.
II - Um sobrepasso no processo de crescimento depende, mais do que de qualquer outra coisa, da boa-sorte.
III - Não adianta a vontade política de um governo imbuído de boas intenções e munido de boas orientações: governos não podem gerar crescimento; em muitos casos, mais atrapalham do que ajudam.
IV - Quem gera crescimento é o mercado.
V - O mercado, ao que tudo indica, por si só também não gera crescimento, o que significa que estamos aqui diante de uma combinação complexa de vários tipos de agenciamento, de vários atores e de vários fatores.
VI - Parece que não existe uma receita para o crescimento, ou melhor, para o crescimento a altas taxas durante um tempo suficiente para promover o desenvolvimento.
VII - Talvez o desenvolvimento não seja resultado do crescimento. Talvez a expansão econômica seja um dos aspectos de um processo mais integral e sistêmico, que aparece como crescimento do PIB quando olhado de um ponto de vista econômico quantitativo, mas que só aparece assim quando outros fatores extra-econômicos, muitos dos quais qualitativos e para os quais costumamos não olhar, apresentam também modificações correspondentes.
VIII - Talvez o crescimento (sustentado) não seja, como se acredita, a causa do desenvolvimento (sustentável) e sim um dos seus efeitos, inclusive um dos efeitos do chamado desenvolvimento econômico, o qual, por sua vez, também não se verifica somente em função do crescimento absoluto do produto, mas sim quando aumenta a prosperidade econômica de uma sociedade, quando aumenta o grau de realização distribuída da propriedade produtiva, quando a riqueza se espalha para mais pessoas que empreendem economicamente gerando uma dinâmica que aumenta a produção diversificada e a circulação de mercadorias (e de moeda, inclusive).
a) I
b) II
c) III
d) IV
e) V
f) II e IV
g) VI, VII e VIII
h) Nenhuma das alternativas anteriores.

28 – Por que as fórmulas que foram tentadas pelas instituições financeiras internacionais para estimular o crescimento em Estados-nações pouco desenvolvidos ou em desenvolvimento não deram certo (a saber: ajuda para o desenvolvimento na forma de investimentos mínimos necessários para a arrancada ou de investimentos em máquinas – empréstimos para construção de fábricas e equipamentos –, para controle populacional, empréstimos para reformas administrativas e, inclusive, perdão da dívida)? (Escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Porque o crescimento não pode ser desencadeado de fora para dentro.
II - Porque investimento, ao contrário do que se acreditou por tanto tempo, não significa necessariamente crescimento.
III - Porque não se sabe como o crescimento populacional afeta o PIB per capita (ao que tudo indica não há relação significativa alguma entre esses dois fatores).
IV - Porque reformas administrativas bancadas de fora e perdão da dívida também não resultam em nada se as elites políticas locais – sobretudo em países com sociedades civis frágeis e democracias de baixa intensidade – puderem se aproveitar dessas medidas para aumentar seu poder discricionário sobre os cidadãos, para enfraquecer as instituições ou para roubar mais.
V - Porque o erro está na unidade que se quer fazer crescer: o Estado-nação (ou melhor, o modelo europeu de Estado-nação – um produto da guerra – que se universalizou nos últimos 150 anos sem ter sido bem absorvido pela imensa maioria das culturas e das territorialidades e que está se revelando inviável como modelo geral do ponto de vista do desenvolvimento).
a) I e II
b) II e III
c) III e IV
d) V
e) Todas as afirmativas são aceitáveis
f) Nenhuma das alternativas anteriores.

Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

FALTAM APENAS 23 DIAS PARA O GFAL

Prossegue a contagem regressiva. Neste blog publico minhas contribuições à discussão preparatória do Global Forum América Latina (CIETEP, Curitiba, Paraná, Brasil, 18 a 20 de junho de 2008). Por favor, leia os artigos deste blog de baixo para cima, na ordem inversa de publicação. Comece pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

As questões de hoje são as seguintes:

20 – John Elkington (1998), em “Cannibals with Forks: the Triple Bottom Line of 21st Century Business”, propôs o conceito de “Tríplice Resultado”, sugerindo que as empresas avaliem o sucesso não só com base no desempenho financeiro (lucro, retorno sobre o investimento – ROI, ou valor para os acionistas), mas também sob o ponto de vista de seu impacto sobre a economia mais ampla, sobre o meio ambiente e sobre a sociedade em que atuam. Não estaria faltando uma dimensão no esquema, relativa aos impactos Políticos da atuação da empresa?
a) Não, a dimensão política já está presente implicitamente nos fatores considerados.
b) Não, a ação empresarial não pode se intrometer na dimensão política.
c) Sim.
d) Nenhuma das alternativas anteriores.

21 – Em relação à questão anterior (Questão 20), podemos afirmar que não adianta nada para uma empresa exercer a sua responsabilidade econômica, ambiental e social se não exercer também a sua responsabilidade política? Se sim, quais os indicadores que você sugere para uma quarta dimensão (a dimensão política)? (Examine as afirmativas abaixo e escolha as melhores alternativas):
I - Programas inovadores de promoção do desenvolvimento (pois uma empresa que exerce a sua responsabilidade corporativa promovendo programas conservadores (não-inovadores) de caráter assistencialista, clientelista ou centralizador não contribui para a conquista da sustentabilidade).
II - Adoção de padrões de organização em rede dentro e fora da empresa, por meio de uma adequada gestão de redes de stakeholders (pois uma empresa que adota padrões verticais, hierárquicos ou piramidais, na sua organização interna e no relacionamento com seus stakeholders, não contribui para a conquista da sustentabilidade).
III - Adoção de critérios éticos, democráticos e de desenvolvimento para o seu relacionamento com o sistema político (pois uma empresa que financia campanhas de políticos corruptos ou apóia agentes, governos, partidos e organizações não comprometidos com a democracia e o desenvolvimento, não contribui para a conquista da sustentabilidade).
IV – Grau de alinhamento a partidos que de fato representam os interesses da maioria da população.
V – Colaboração com os governos legitimamente eleitos, pois faz parte da responsabilidade política de uma empresa não criar dificuldades para a boa administração pública.
a) I e II
b) III e V
c) II e IV
d) I, II e III
e) III, IV e V
d) Nenhuma das alternativas anteriores.

22 – Ainda em relação à Questão 20: de que maneira o setor empresarial deveria – prioritariamente – influir na política? (Examine as afirmativas abaixo e escolha as melhores alternativas):
I - Financiando candidaturas para garantir a boa-vontade dos representantes eleitos e a sua sintonia com as necessidades setoriais da indústria, do comércio, da agricultura, dos transportes e dos serviços financeiros.
II - Articulando bancadas parlamentares que defendam os interesses do empresariado.
III - Encomendando estudos de alto nível sobre os grandes impasses estratégicos do país e ofertando tais estudos às autoridades.
IV - Influindo na pauta política a partir da mobilização empresarial de forças sociais expressivas, que não podem ser arregimentadas somente dentro das fronteiras das organizações corporativas patronais ou empresariais.
V - Mobilizando a sociedade em torno de uma agenda estratégica para o Brasil (que, partindo da defesa da democracia e do desenvolvimento possa chegar ao detalhamento de propostas concretas para a reforma fiscal, para a segurança jurídica, para a segurança pública, para a infra-estrutura, para a educação, para a governança pública e para as reformas política e administrativa).
a) I e II
b) II e III
c) IV e V
d) Nenhuma das alternativas anteriores.

23 – Mais uma vez em relação à Questão 20: de que maneira o setor empresarial poderia assumir a sua responsabilidade política? (Examine as afirmativas abaixo e escolha as melhores alternativas):
I - Aprendendo a articular politicamente os seus interesses e, sobretudo, a sua causa (pois empresas em uma realidade social complexa não têm como abrir mão da política).
II - Exercitando uma legítima ação política empresarial, que vai além, muito além, da defesa de interesses corporativos, por mais justos que sejam (pois se o setor empresarial não assumir protagonismo, falando para os outros dois setores – para o primeiro setor (o Estado) e para o terceiro setor (a Sociedade Civil) – não se transformará num ator político capaz de tomar iniciativas para construir arranjos mais virtuosos entre os diversos atores desses setores).
III - Elaborando e articulando projetos sustentáveis ou programas de sustentabilidade (pois não é apenas pagando impostos, gerando empregos e produzindo riquezas, protegendo o meio ambiente e tentando melhorar a vida das pessoas individualmente que o setor empresarial poderá cumprir o seu papel promotor do desenvolvimento).
a) I e II
b) II e III
c) I, II e III
d) Nenhuma das alternativas anteriores.

Domingo, 25 de Maio de 2008

FALTAM 24 DIAS PARA O GFAL

Prossegue a contagem regressiva. Neste blog publico minhas contribuições à discussão preparatória do Global Forum América Latina (CIETEP, Curitiba, Paraná, Brasil, 18 a 20 de junho de 2008). Por favor, leia os artigos deste blog de baixo para cima, na ordem inversa de publicação. Comece pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

As questões de hoje são as seguintes:

17 – Quanto aplicado ao mundo empresarial, o conceito de sustentabilidade tem sido formulado assim: “Empresa sustentável é aquela que gera lucro para os acionistas, ao mesmo tempo em que protege o meio ambiente e melhora a vida das pessoas com que mantém interações” (Savitz e Weber, 2006). Na sua opinião, essa conceituação é adequada? (Examine as afirmativas abaixo e escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Sim, pois é disso que se trata mesmo: sustentabilidade econômica (gerar lucros), sustentabilidade ambiental (proteger o meio ambiente) e sustentabilidade social (melhorar a vida das pessoas).
II - Não, o conceito de sustentabilidade vai além disso, conotando um sentido sistêmico que não pode ser adequadamente traduzido por uma soma de ações setoriais: econômicas, ambientais e sociais.
III - Não, pois embora qualquer empresa tenha como objetivo precípuo a geração de lucro e deva ter a responsabilidade suficiente para não destruir os recursos que serão necessários para a vida da geração presente e das gerações futuras e para não afetar negativamente as sociedades que sofrem o impacto de seu funcionamento, sua sustentabilidade não poderá ser conquistada (e não estará garantida) apenas com a efetivação dessas medidas.
IV - É imprecisa, pois não se trata exatamente de ‘proteger’ o meio ambiente e sim de promover a sua conservação dinâmica (isto é, dinamizando as potencialidades naturais latentes em prol do desenvolvimento).
V - É imprecisa, pois não se trata exatamente de ‘melhorar a vida das pessoas’ individualmente e sim de contribuir para a criação de ambientes que favoreçam o seu desenvolvimento humano e social.
VI - É incompleta, pois embora considere as dimensões econômicas, ambientais e sociais da sustentabilidade, não leva em conta a sua dimensão política.
a) I
b) II e III
c) II, III e IV
d) II, III, IV e V
e) II, III, IV, V e VI
f) Nenhuma das alternativas anteriores.

18 – Uma empresa isolada pode alcançar sustentabilidade? (Examine as afirmativas abaixo e escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Não, sustentabilidade (ou desenvolvimento, numa visão sistêmica) é sempre a operação de uma rede de co-desenvolvimentos interdependentes.
II - Não, para alcançar a sustentabilidade a empresa deve fazer uma gestão adequada da rede de seus stakeholders (termo cunhado por Edward Freeman (1984) em “Strategic Management: a stakeholder aproach”, para designar qualquer pessoa que seja afetada, ou possa ser afetada, pelo desempenho de uma organização), voltada para o seu próprio desenvolvimento e para o desenvolvimento do mundo onde ela e seus parceiros atuam.
III - Não, o que chamamos de desenvolvimento (ou sustentabilidade segundo um modelo regulacional e não transformacional ou variacional) é algo que acontece em rede: é a rede que regula a adaptação, mudando seu programa de adaptação, ou seja, aprendendo (e é isso o que se chama de sustentabilidade ou desenvolvimento, na nova concepção sistêmica).
a) I e II
b) II e III
c) I e III
d) I, II e III
e) Nenhuma das alternativas anteriores.

19 – Uma empresa pode alcançar sustentabilidade apenas por razões empresariais? (Examine as afirmativas abaixo e escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Não, empresas não são o que parecem: a primeira vista são enterprises de um empreendedor que arregimenta subordinados em troca de um pagamento, mas nenhuma empresa poderá se tornar sustentável por razões exclusivamente empresariais, sem alavancar recursos novos (baseados no engajamento voluntário, no entusiasmo para criar e para inovar) que não podem ser obtidos apenas em troca de remuneração.
II - Não, as empresas devem ter uma causa e devem contar com trabalho voluntário de seus colaboradores em torno dessa causa (transformando-os em agentes do desenvolvimento da empresa e do mundo onde a empresa atua).
III - Não, pois como disseram James Collins e Jerry Porras (1995), em “Built to last: successful habits of visionary companies”, “a empresa será cada vez mais mantida pela ideologia. As pessoas ainda têm uma necessidade humana de pertencer a algo de que possam se orgulhar. Elas necessitam de valores e de um objetivo que dá significado às suas vidas e aos seus trabalhos. Elas precisam estar ligadas a outras pessoas, compartilhando com elas crenças e aspirações em comum”.
IV - Não, porque como escreveu Arie de Geus (1997) em "The living company" "uma empresa viva saudável terá membros, representados por pessoas e outras instituições, que aderirão a um conjunto de valores comuns e que acreditarão que os objetivos da empresa tanto lhes permitem alcançar seus próprios objetivos individuais como os ajudam nesse sentido".
a) I
b) I e II
c) I, II e III
d) I, II, III e IV
e) Nenhuma das alternativas anteriores.

Sábado, 24 de Maio de 2008

CONTAGEM REGRESSIVA PARA O GFAL...

AGORA SÓ FALTAM 25 DIAS!

Neste blog publico minhas contribuições à discussão preparatória do Global Forum América Latina (CIETEP, Curitiba, Paraná, Brasil, 18 a 20 de junho de 2008). Por favor, leia os artigos deste blog de baixo para cima, na ordem inversa de publicação. Comece pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

A questão de hoje é a seguinte:

16 – Jane Jacobs (2000), em “The nature of economies”, elencou três princípios fundamentais do desenvolvimento: 1) o processo de desenvolvimento implica diferenciações emergindo de generalidades. 2) as diferenciações se tornam generalidades das quais emergem novas diferenciações. 3) desenvolvimento depende de co-desenvolvimentos. A partir desses princípios podemos afirmar que, para Jacobs: (Examine as afirmativas abaixo e escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Desenvolvimento sem uma rede de co-desenvolvimentos é tão impossível para uma economia como para um desenvolvimento biológico.
II - Desenvolvimento é um processo aberto que produz diversidade crescente, além de numerosas, múltiplas, intrincadas relações crescentes de co-desenvolvimento.
III - No que chamamos de desenvolvimento há um estupendo processo em ação: desenvolvimentos e co-desenvolvimentos através de diferenciações; expansão através da diversificação; continuidade através de auto-reabastecimento; estabilização através da autocorreção – todos ativados através de auto-organização imprevisível.
IV - O modelo de desenvolvimento é regulacional: o que chamamos de desenvolvimento é algo que acontece em rede e é essa rede que regula a adaptação, mudando seu programa de adaptação, ou seja, aprendendo (e isso é o que se chama de sustentabilidade ou desenvolvimento de um ponto de vista sistêmico).
a) I
b) II
c) III
d) IV
e) I, II e III
f) I, II, III e IV
g) Nenhuma das alternativas anteriores.

Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

A CONTAGEM REGRESSIVA CONTINUA

FALTAM 26 DIAS PARA O GFAL. Neste blog publico minhas contribuições à discussão preparatória do Global Forum América Latina (CIETEP, Curitiba, Paraná, Brasil, 18 a 20 de junho de 2008).

Por favor, leia os artigos deste blog de baixo para cima, na ordem inversa de publicação. Comece pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

As questões de hoje são as seguintes:

13– Segundo o biólogo chileno Humberto Maturana (1985), “é a contínua produção e intercâmbio de seus componentes, o que caracteriza os seres vivos e é isto o que se perde no fenômeno da morte". As idéias de Maturana sobre esse processo de autopoiese (autocriação) que caracteriza os seres vivos, podem ajudar a compreensão da sustentabilidade das sociedades e organizações humanas? (Examine as afirmativas abaixo e escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Não, as idéias de Maturana sobre os seres vivos não podem se aplicar às organizações.
II - Sim, as idéias de Maturana podem sugerir modelos para a compreensão da sustentabilidade, pois existem aspectos da vida, relativos à dinâmica da mudança estrutural e à conservação da adaptação, que se assemelham ao processo de desenvolvimento das organizações.
III - Sim, porque qualquer sistema constituído como unidade, como uma rede de produção de componentes que, em suas interações, geram a mesma rede que os produz e constituem seus limites como parte do próprio sistema no seu espaço de existência, é um sistema autopoiético. Os seres vivos são sistemas autopoiéticos moleculares e existem como tais no espaço molecular. Mas em princípio pode haver sistemas autopoiéticos em qualquer espaço no qual possa se realizar a organização autopoiética.
a) I
b) II
c) III
d) I e II
e) II e III
f) Nenhuma das alternativas anteriores.

14 – Em relação a questão anterior (Questão 13): para Maturana, "nos sistemas em contínua mudança estrutural, como os seres vivos, a mudança estrutural se dá tanto como resultado de sua dinâmica interna, como desencadeado por suas interações com um meio que também está em contínua mudança”. Do que escreveu Maturana podemos inferir: (Examine as afirmativas abaixo e escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Que a estrutura de cada ser vivo é, em cada instante, o resultado do caminho de mudança estrutural que seguiu a partir de sua estrutura inicial, como conseqüência de suas interações no meio em que lhe coube viver.
II - Que o que chamamos de vida é um exemplo de sustentabilidade, ou seja, é a capacidade de fazer e refazer, continuamente, congruências múltiplas e recíprocas com o meio.
III - Que a vida (como exemplo de sustentabilidade) é uma capacidade de “dançar conforme a música”.
a) I
b) II
c) III
d) I e II
e) II e III
f) I, II e III
g) Nenhuma das alternativas anteriores.

15 – Ainda em relação à Questão 13: segundo Maturana, "um ser vivo conserva sua organização em um meio somente se sua estrutura e a estrutura do meio são congruentes e se esta congruência se conserva”. Fazendo um paralelo com organizações sustentáveis, podemos afirmar que: (Examine as afirmativas abaixo e escolha a(s) melhor(es) alternativa(s)):
I - Considerando que essa congruência estrutural entre ser vivo e meio (seja qual for este meio) chama-se adaptação, uma organização continua existindo como tal (como um sistema) somente enquanto conserva a sua adaptação.
II - Todo sistema existe somente na conservação de sua adaptação e de sua organização e somente em circunstâncias nas quais a conservação de uma envolva a conservação da outra.
III - A estrutura presente de uma organização (sistema) é sempre o resultado de uma história na qual suas mudanças estruturais foram congruentes com as mudanças estruturais do meio.
a) I
b) II
c) III
d) I e II
e) II e III
f) I, II e III
g) Nenhuma das alternativas anteriores.

Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

FALTAM 27 DIAS PARA O GFAL

Leia os artigos deste blog de baixo para cima, na ordem inversa de publicação. Comece pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

As questões de hoje são as seguintes:

11 – O que chamamos de sustentabilidade da empresa (ou da sua rede de relações) ocorre somente enquanto a empresa se desenvolve. Sim ou não? Se você disse sim, marque a(s) alternativa(s) que lhe parece(m) mais correta(s):
I – A idéia de desenvolvimento está intimamente ligada à idéia de movimento (de formação, crescimento e mudança – que são movimentos) em direção à sustentabilidade.
II – Pode haver movimento sem haver desenvolvimento. Por exemplo, o simples crescimento de tamanho (no caso de uma empresa: de faturamento, de número de funcionários, de número de filiais) é um movimento, mas não é, por si só e necessariamente, desenvolvimento. Por isso desenvolvimento é algo mais do que crescimento.
III – No caso de sistemas formados por seres humanos, desenvolvimento só é desenvolvimento mesmo se for humano, social e sustentável. Essa é uma nova concepção de desenvolvimento, que vale para qualquer coletividade humana estável, seja uma sociedade, seja uma organização, como uma empresa.
a) I
b) II
c) III
d) I e II
e) II e III
f) I e III
g) I, II e III

12 – Ser sustentável é... (Examine as afirmativas abaixo e escolha as melhores alternativas):
I - Durar para sempre.
II - Continuar “vivo”.
III - Se desenvolver continuamente (segundo um ponto de vista sistêmico).
IV - Poder continuar mantendo a mesma identidade.
V - “Dançar conforme a música”.
VI - “Andar com as próprias pernas”.
VII - Mudar de acordo com a mudança das circunstâncias.
VIII - Conseguir fazer e refazer, continuamente, congruências múltiplas e recíprocas com o meio.
IX - Ser capaz de conservar a adaptação (ao meio) e a organização (interna).
X - Conservar sua adaptação ao meio em que existe, desde que, ao conservar sua adaptação, conserve também sua organização.
XI - Ser capaz de mudar o próprio programa de adaptação.
a) I, III, IV, VII, IX e XI.
b) II, III, V, VI, VIII e X.
c) I, IV, VII, VIII, X e XI.
d) Todas as alternativas são aceitáveis.
e) Nenhuma das alternativas anteriores.

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

FALTAM 28 DIAS PARA O GFAL

Leia os artigos deste blog de baixo para cima, na ordem inversa de publicação. Comece pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL.

As questões de hoje são as seguintes:

09 – Como você definiria responsabilidade corporativa?
I - Capacidade da empresa de criar valor nas suas redes de relações.
II - Gestão preventiva de impactos econômicos, ambientais, sociais e políticos.
III - Sintonia da empresa com o desenvolvimento sustentável por meio do compromisso com uma agenda nacional (através de uma atuação em rede com diferentes atores sociais), com uma agenda local (onde a empresa está) e uma agenda de engajamento dos diversos públicos internos da empresa (por meio do investimento social privado e do voluntariado).
a) I
b) II
c) III
d) As alternativas I, II e III poderiam compor uma boa definição de responsabilidade corporativa (embora alternativa II seja meio defensiva e, além disso, incompleta; melhor seria dizer: gestão proativa dos recursos e dos impactos econômicos, ambientais, sociais e políticos).
e) Nenhuma das alternativas anteriores.


10 – Uma empresa só pode ser sustentável se for capaz de exercitar a sua responsabilidade corporativa. Sim ou não? Por que? Se você disse sim, marque a(s) alternativa(s) que lhe parece(m) mais correta(s):
I - Porque a sustentabilidade de uma empresa tem a ver com as relações entre a sua atuação e o ambiente externo à empresa (o mundo, o país, a localidade onde está situada) e a empresa deve assumir na prática a responsabilidade pelos impactos (econômicos, sociais, ambientais e políticos) que a sua atuação produzirá nesse ambiente externo.
II - Porque a sustentabilidade de uma empresa tem a ver com as relações entre o ambiente interno e o ambiente externo à empresa e a empresa deve conseguir manter uma congruência dinâmica entre esses dois ambientes assumindo e exercendo a responsabilidade por monitorar e modificar continuamente a sua estrutura e a sua dinâmica para manter tal congruência.
III - Porque não é a empresa isoladamente que pode ser sustentável e sim a sua rede de relações, da qual participam seus diversos públicos, internos e externos e, assim, a empresa deve assumir a responsabilidade por tecer e animar essa rede de modo a permitir a emergência de processos sistêmicos de coordenação capazes de conservar a sua adaptação e a sua organização.
a) I
b) II
c) III
d) I e II
e) II e III
f) I e III
g) I, II e III

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

FALTAM 29 DIAS

Faltam 29 dias para o início do Global Forum América Latina (GFAL), que se realizará no CIETEP, em Curitiba, de 18 a 20 de junho de 2008. Postei neste blog vários artigos tratando do tema. O objetivo é contribuir com o debate preparatório do encontro. Para ler os artigos comece de baixo para cima, na ordem inversa de publicação.

Estou fazendo aqui uma contagem regressiva, publicando a cada dia algumas questões sobre as relações entre responsabilidade social e sustentabilidade empresarial e sobre temas conexos. Algumas respostas podem ser buscadas nos textos já publicados neste blog (você deve lê-los de baixo para cima, começando sempre pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL e seguindo a ordem inversa de publicação).

As questões de hoje são as seguintes:

06 – A participação empresarial constitui, nas sociedades contemporâneas, um aporte necessário, imprescindível e insubstituível? Por quê?
a) Porque os Estados estão falidos e os recursos necessários para promover o desenvolvimento social estão nas empresas.
b) Porque o mundo empresarial desenvolveu padrões de excelência em gestão e em estratégia para a obtenção de resultados em sistemas complexos (como o são os mercados atuais) que podem se somar àqueles desenvolvidos pela moderna gestão pública.
c) Porque o exercício da responsabilidade corporativa tem caráter supletivo e se justifica pela ausência da ação estatal verificada nos dias de hoje.
d) Nenhuma das alternativas anteriores.

07 – É porque o Estado está se retraindo ou está sendo pouco eficaz, pouco eficiente ou pouco efetivo, que as empresas devem ser chamadas a vir “tapar o buraco”.
a) Sim.
b) Não.
c) Em parte.

08 – Uma empresa jamais poderá (e deverá) substituir o Estado ou compensar a sua falta. Sim ou não? Por quê? Se você disse sim, escolha abaixo a alternativa que lhe parece menos correta:
a) Porque empresas e Estado são tipos diferentes de agenciamento, têm “lógicas” diversas e suas ações são presididas por racionalidades distintas.
b) Porque o conhecimento acumulado por uma empresa, seu processo de aprendizado, sua experiência, sua visão da sociedade e seu modo de intervir não são os mesmos que aqueles característicos do Estado (e dos governos).
c) Porque a empresa é uma organização privada, que não deve ter a obrigação de prover bens e serviços públicos.
d) Nenhuma das alternativas anteriores.

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

FALTAM 30 DIAS

Faltam 30 dias para o início do Global Forum América Latina (GFAL), que se realizará no CIETEP, em Curitiba, de 18 a 20 de junho de 2008. Postei neste blog vários artigos tratando do tema. O objetivo é contribuir com o debate preparatório do encontro. Para ler os artigos comece de baixo para cima, na ordem inversa de publicação. Comece lendo o primeiro artigo, intitulado "Análise do conteúdo dos Princípios do Global Compact para a educação executiva de alto nível".

A questão de hoje é a seguinte:

05 – Marque as alternativas que, a seu ver, são desejáveis:
I - A empresa não pode (e não deve) replicar o padrão de relação do Estado com a sociedade, nem, muito menos, recair nos vícios desse tipo relação (como o assistencialismo, o clientelismo e a centralização).
II - O investimento social da empresa não tem a ver, nem apenas nem principalmente, com a aceitação de um apelo ético em virtude do “bom coração” (ou da “consciência culpada”) dos seus donos.
III - O investimento social da empresa não tem a ver, nem apenas, nem principalmente, com a visão instrumental, orientada pelo marketing, de que isso é bom para os negócios (em termos de crescimento dos lucros).
IV - O investimento social da empresa tem a ver com o desenvolvimento da empresa como um todo, com a sua sustentabilidade; ou seja, com as condições estruturais para que a empresa possa ser capaz de conservar a sua adaptação a um mundo em acelerada mutação.
a) I e II
b) I, II e III
c) I, II, III e IV
d) Nenhuma das alternativas anteriores.

Domingo, 18 de Maio de 2008

FALTAM 31 DIAS

Faltam 31 dias para o início do Global Forum América Latina (GFAL), que se realizará no CIETEP, em Curitiba, de 18 a 20 de junho de 2008. Postei neste blog vários artigos tratando do tema. O objetivo é contribuir com o debate preparatório do encontro. Para ler os artigos comece de baixo para cima, na ordem inversa de publicação.

As questões de hoje são as seguintes:

03 – A adesão crescente do empresariado ao conceito e à prática da responsabilidade social, deve-se à consciência de que não fazer isso pode acabar afetando negativamente os resultados econômicos da empresa.
a) Não.
b) Sim, pelo menos em parte.
c) Talvez.
d) Nenhuma das alternativas anteriores.

04 – O fato de muitos empresários terem aderido à responsabilidade social por razões de marketing é um grande problema? Por quê?
a) Sim, porque está deixando transbordar a lógica do mercado para a sociedade.
b) Não, pode ser um problema, mas não um grande problema e sim uma contingência da natureza da atividade empresarial: porque as razões de marketing constituem, de fato, a racionalidade e a “lógica” de funcionamento do mercado e não há como delas se desvencilhar quando se vem do mercado.
c) Sim, porque ao conceberem e praticarem dessa forma a responsabilidade social, muitas empresas estão perdendo preciosas oportunidades de se desenvolver e de contribuir para o desenvolvimento da sociedade a que pertencem.
d) Sim, porque embora o conceito de responsabilidade social não se aplique somente a organizações empresariais, a participação empresarial constitui, nas sociedades contemporâneas, um aporte necessário, imprescindível e insubstituível.
e) Nenhuma das alternativas anteriores.

Sábado, 17 de Maio de 2008

FALTAM 32 DIAS

Faltam 32 dias para o início do Global Forum América Latina (GFAL), que se realizará no CIETEP, em Curitiba, de 18 a 20 de junho de 2008. Postei neste blog vários artigos tratando do tema. O objetivo é contribuir com o debate preparatório do encontro. Para ler os artigos comece de baixo para cima, na ordem inversa de publicação.

E a questão de hoje é a seguinte:

02 – Tem crescido muito ultimamente o movimento de responsabilidade social no meio empresarial. Qual o motivo mais freqüente? (Examine as sentenças abaixo e escolha as melhores alternativas:)
I - A aceitação do chamamento ético à responsabilidade. Muitos empresários, por uma questão de postura pessoal, acolheram tal apelo.
II - O surgimento e a expansão de novas formas de convivência e de sociabilidade que estão estimulando o trabalho voluntário, a doação de tempo e recursos para questões sociais e ambientais. Alguns empresários passaram a admirar essas novas práticas, baseadas em valores como cooperação e solidariedade, que começaram a ocorrer, inclusive, dentro de suas empresas ou a serem exercidas por seus empregados em outros ambientes. De certo modo, foram contagiados por elas e passaram, então, a considerar seriamente a possibilidade de se engajar em ações semelhantes, tanto individualmente, quanto coletivamente, destinando uma parte dos recursos auferidos com seus negócios para investimentos em causas sociais.
III - A emergência de uma nova visão das relações entre o mercado e a sociedade – compartilhada hoje por muitos donos de empresas, acionistas e CEOs –, segundo a qual é altamente desejável manter sintonia com as inovações sociais contemporâneas. Uma empresa moderna, sintonizada com a contemporaneidade, não pode sê-lo apenas nos seus negócios, nos seus produtos ou serviços e nos seus processos de produção e de gestão. Deve, além disso, manter uma relação com os seus funcionários e com o ambiente externo sintonizada com a contemporaneidade. Isso, por certo, tem a ver com a imagem da empresa, mas também tem a ver com a sua missão, o seu propósito, a sua razão de ser. Portanto, isso tem a ver com a capacidade da empresa de mobilizar capital humano e capital social, interno e externo.
IV - Os empreendedores empresariais querem ser modernos, querem estar na vanguarda, querem participar das inovações e, sobretudo, não querem ficar fora da nova onda e serem considerados ultrapassados.
V - Muitas empresas resolveram responder ao apelo da responsabilidade social com o chamado marketing social. Assim, passaram a exercer o seu investimento social privado também como um negócio. Viram que era bom para os negócios que a empresa aparecesse como uma empresa responsável socialmente. Ou viram, pelo menos, que o contrário não era muito bom para os negócios: empresas que não estão comprometidas – ou que não aparecem publicamente como comprometidas – com a qualidade de vida do meio social onde se inserem, dos seus stakeholders, sobretudo de seus clientes ou dos destinatários finais de seus produtos ou serviços, começaram a ficar mais vulneráveis a questionamentos dos consumidores e da opinião pública em geral, tal como já acontece, há mais tempo, com empresas não comprometidas com a conservação do meio ambiente natural.
a) I e II
b) II e III
c) III e IV
d) IV e V
e) Nenhuma das alternativas anteriores.

Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

CONTAGEM REGRESSIVA

FALTAM 33 DIAS para o início do Global Forum América Latina (GFAL), que se realizará no CIETEP, em Curitiba, de 18 a 20 de junho de 2008. Postei neste blog vários artigos tratando do tema. O objetivo é contribuir com o debate preparatório do encontro.

A partir de hoje, a cada dia, vou manter a contagem regressiva, publicando uma ou duas questões diferente sobre as relações entre responsabilidade social e sustentabilidade empresarial e sobre temas conexos. As respostas poderão ser encontradas no curso à distância RESPONSABILIDADE SOCIAL E SUSTENTABILIDADE que será ofertado on line, pela Rede de Participação Política do Empresariado a partir de julho de 2008. Como a idéia é manter a blogosfera http://gfal.bogspot.com/ como um permanente fórum virtual (da qual este blog é um nodo), teremos bastante tempo para refletir sobre os questionamentos apresentados. Além disso, algumas respostas podem ser buscadas nos textos já publicados neste blog (você deve lê-los de baixo para cima, começando sempre pelo artigo ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL e seguindo a ordem inversa de publicação).

Bem, para começar então a questão de hoje é a seguinte:

01 – Em geral o conceito de responsabilidade social tem aparecido como um apelo de natureza ética, dirigido ao mundo empresarial. Na sua opinião:
a) Seria uma maneira dos empresários devolverem à sociedade onde vivem, na forma de investimento social privado (em saúde, educação, assistência a crianças, idosos, pessoas em situação de risco e portadoras de necessidades especiais etc.), uma parte dos lucros que conseguiram realizar em seus negócios.
b) Os empresários não têm nenhuma obrigação de devolver nada à sociedade além dos altos impostos que já pagam, dos empregos que geram, dos bens e serviços que produzem e da dinamização da economia que sua atividade desencadeia.
c) A única obrigação dos empresários é remunerar bem o trabalho dos seus colaboradores e o capital dos seus sócios ou acionistas.
d) Seria uma maneira da empresa fortalecer os seus laços com a sociedade e ao mesmo tempo direcioná-los para o desenvolvimento por meio de uma adequada gestão da sua rede de stakeholders, compreendendo seus proprietários e acionistas e dirigentes, seus funcionários, seus fornecedores, outras empresas e organizações coligadas ou parceiras, o público alvo de suas ações de responsabilidade social, seus clientes e consumidores de modo geral e as populações afetadas pela sua atuação.
d) Nenhuma das alternativas anteriores.

GRANDES QUESTÕES PRÁTICAS PARA O GFAL

Na série de artigos postados aqui - como contribuição à discussão do GFAL - tratamos das idéias, do por quê. Não tratamos do como, quer dizer, das práticas e das metodologias.

Dissemos aqui quais são, ao nosso ver, as questões-chave colocadas para as empresas que quiserem se manter na busca da sustentabilidade neste início do século 21. Agora será necessário responder essas questões associadas a cada um dos desafios considerados:

1 – A empresa como agente de desenvolvimento. Como elaborar, articular e executar programas inovadores de desenvolvimento baseados no investimento em capital social? Que programas seriam esses, quais as suas características, como eles poderiam ser desenhados e quais os requisitos para a sua aplicação? Quais seriam as metodologias mais indicadas para induzir o desenvolvimento da localidade onde a empresa está sediada ou do setor em que ela atua?

2 – Rede e democracia na empresa. Como estabelecer um padrão de rede na organização, mobilizando setores, equipes e pessoas em torno de valores compartilhados e objetivos comuns? Como fazer netweaving para articular e animar redes de stakeholders? E como aplicar as novas tecnologias de informação e comunicação para iniciar a transição de uma organização-mainframe para uma organização-network? E ainda: como implementar uma dinâmica democrática dentro da organização e nas suas relações externas?

3 – A empresa com uma causa. Como rever as definições estratégicas básicas da empresa à luz das novas exigências de sustentabilidade, reformulando com clareza os seus valores centrais e o seu objetivo? Como definir a causa da empresa? E como promover o voluntariado dentro e fora da empresa em torno da sua causa?

4 – Da responsabilidade social para a responsabilidade política. Como formular uma agenda de responsabilidade social e uma agenda de responsabilidade política que contemplem as questões-chave colocadas pelos desafios acima?

Para apoiar esse esforço seguem algumas indicações de leitura.

Para uma visão básica do processo de sustentabilidade é recomendável ler os seguintes artigos:

1 – MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco (1973). De Máquinas e Seres Vivos – autopoiesis: a organização do vivo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
2 – LOVELOCK, James. Gaia: a new look at life on Earth. Oxford: Oxford University Press, 1979.
3 – MATURANA, Humberto (1985). Desde la Biología a la Psicología. Santiago de Chile: Editorial Universitaria, 1996.
4 – LOVELOCK, James (1991). Gaia: medicine for an ailing planet . London: Gaia Books, 1991 (Existe tradução brasileira: Gaia: cura para um planeta doente. São Paulo: Cultrix, 2006).
5 – CAPRA, Fritjof (1996). A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1997.
6 – MARGULIS, Lynn (1998). O Planeta Simbiótico: uma nova perspectiva da evolução. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
7 – LEWONTIN, Richard (1998). A tripla hélice. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
8 – JACOBS, Jane (2000). The nature of economies. New York: Vintage Books, 2000 (Existe tradução brasileira: A natureza das economias. São Paulo: Beca, 2001).
9 – FRANCO, Augusto (2001). Capital Social: leituras de Tocqueville, Jacobs, Putnam, Fukuyama, Maturana, Castells e Levy. Brasília: Instituto de Política, 2001.
10 – GORE, Al (2006). An inconvenient truth - The planetary emergency of global warming and what we can do about it (Existe tradução brasileira: Uma verdade inconveniente - O que devemos saber (e fazer) sobre o aquecimento global. São Paulo: Manole, 2006).
11 – UGARTE, David (2007). O poder das redes. Porto Alegre: CMDC / ediPUCRS, 2008.

Sobre sustentabilidade empresarial é importante ler, pelo menos, os seguintes textos:

1 – FREEMAN, Edward R. (1984). Strategic Management: a stakeholder approach. Boston: Pittman, 1984.
2 – COLLINS, James e PORRAS, Jerry (1995), Built to last: successful habits of visionary companies (Existe tradução brasileira: Feitas para durar: práticas bem-sucedidas de empresas visionárias. Rio de Janeiro: Rocco, 1995)
3 – de GEUS, Arie (1997), The living company (Existe tradução brasileira: A empresa viva: como as organizações podem aprender a prosperar e se perpetuar. Rio de Janeiro: Elsevier, 1998).
4 – ELKINGTON, John (1998). Cannibals with Forks: the Triple Bottom Line of 21st Century Business. Filadélfia: New Society, 1998.
5 – LASZLO, Chris (2004). The Sustainable Company. Washington: Island Press, 2003.
6 – SAVITZ, Andrew e WEBER, Karl (2006). The Triple Bottom Line. New York: John Wiley & Sons, 2006. (Existe tradução brasileira: A empresa sustentável: o verdadeiro sucesso é lucro com responsabilidade social e ambiental. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007).

LER DE BAIXO PARA CIMA

Os artigos aqui postados devem ser lidos (de baixo para cima) na seguinte ordem:

ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL

AVANÇANDO NO GFAL

SOBRE O CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE

AUTOPOIESE

INTERDEPENDÊNCIA, RECICLAGEM, PARCERIA, FLEXIBILIDADE E DIVERSIDADE

DESENVOLVIMENTO COMO REDE DE CO-DESENVOLVIMENTOS INTERDEPENDENTES

Et coetera (siga a ordem inversa da relação que aparece nos Arquivos do Blog, na coluna ao lado).

AS RELAÇÕES ENTRE RESPONSABILIDADE SOCIAL E SUSTENTABILIDADE

Vamos tentar responder, de um novo ponto de vista, a questão sugerida pelo título deste post: por que uma empresa deve exercer de uma nova maneira a sua responsabilidade social se quiser trilhar o caminho da busca da sustentabilidade.

Já vimos em artigos anteriores que uma empresa não pode conquistar sua sustentabilidade apenas por razões empresariais, econômicas, de mercado e, portanto, deve atuar em outros setores, regidos por outras lógicas ou por outras racionalidades. Em outras palavras, a dinâmica competitiva (própria do chamado segundo setor) é necessária, mas não é suficiente quando o assunto é sustentabilidade (exigindo que se incorpore também, no processo de conquista da sustentabilidade, outras dinâmicas, cooperativas e normativas). Mas por quê?

A explicação sugerida pela matriz de sustentabilidade apresentada no post anterior é bem simples. Nenhuma empresa consegue, ao mesmo tempo, produzir todos os capitais de que precisa e se manter economicamente viável no curto e no longo prazos.

Parte considerável do capital natural, do capital humano e do capital social que a empresa utiliza em seus processos produtivos ou econômicos já deve estar no ambiente em que a empresa existe. No tocante ao capital natural, por exemplo, alguns desses recursos (como o ar atmosférico) ainda não têm custo, mas outros (como a água doce, os recursos minerais e ambientais de um modo geral) já têm. Para o processo econômico ser viável é necessário que esses custos sejam compatíveis com o preço de mercado dos produtos ou serviços da empresa. É mais difícil montar uma empresa de produtos biológicos no deserto de Atacama do que em Santiago do Chile.

No tocante ao capital humano, é quase a mesma coisa. Parte do capital humano que a empresa utiliza não foi formada por ela e sim pelos sistemas público e privado de ensino e pelos esforços de auto-aprendizado dos indivíduos. Tudo isso foi pago com recursos dos cidadãos (via receita fiscal, pelo Estado e pela poupança e salário das famílias). Se uma empresa fosse pagar pela formação de todo capital humano que utiliza, ficaria inviável economicamente.

Além disso, uma empresa precisa ter condições favoráveis para substituir seus colaboradores (que falecem, ficam doentes ou mudam de emprego) sem ter que fazer para isso grandes investimentos. Se na região onde a empresa está sediada o capital humano é muito baixo, os custos de recrutamento e substituição de funcionários aumentarão perigosamente. É mais difícil montar uma empresa de software em Maceió do que em Palo Alto ou Santa Clara, no Vale do Silício, na Califórnia.

Ocorre que a educação não é o único componente do capital humano. Temos também a saúde (e a alimentação e a nutrição). Imaginem se uma empresa fosse responsável por prover ou suprir – com seus próprios recursos – todos esses itens.

No que diz respeito ao capital social, tudo fica ainda mais evidente. Empresas localizadas em sociedades pouco cooperativas têm enormes problemas. Seus custos de transação vão para o espaço. Freqüentemente essas empresas se vêem envolvidas em toda sorte de conflitos com seus colaboradores, fornecedores, clientes e com as populações que vivem nessas localidades. Para mediar esses conflitos, as empresas gastam tempo e outros recursos preciosos que deveriam estar sendo empregados em seus processos de gestão, produção, pesquisa e desenvolvimento (inovação).

O mesmo ocorre com empresas situadas em países onde a segurança jurídica é baixa ou a instabilidade regulatória é muito alta. Empresas nessas condições têm que manter um imenso contencioso de advogados e, não raro, têm que subornar autoridades (parlamentares, governantes, juízes e promotores) para poder se ver livres de processos judiciais ou para poder desembaraçar trâmites burocráticos desnecessários e atender a outras exigências normativas abusivas. Tudo isso, é claro, aumenta a margem de incerteza de investimentos externos que poderiam ser atraídos pelas empresas. Não é por acaso que quem tem 1 milhão de dólares para investir em uma atividade produtiva prefira fazê-lo no Japão, na Islândia, no Canadá ou na Nova Zelândia e não na Bolívia, no Equador, na Nicarágua ou na Venezuela.

Além da insegurança jurídica, também pesa excessivamente no custo da empresa a insegurança pública, por motivos óbvios. Mas segurança pública não depende apenas de uma boa atuação do Estado. Ela depende dos padrões de convivência social e, portanto, reflete diretamente o nível do capital social. Nenhum investidor gostaria de abrir seu novo negócio na Faixa de Gaza; ou mesmo – dependendo do tipo de negócio – em certos bairros do Rio de Janeiro.

Quanto ao capital social, uma empresa sozinha pode fazer menos ainda do que em relação ao capital humano (cujos baixos níveis podem ser parcialmente compensados por programas de capacitação corporativos). Mas ainda que uma empresa pudesse investir maciçamente, com seus próprios recursos, para produzir todo o capital social de que necessita, mesmo assim isso não seria suficiente. Não é bem da natureza da atividade empresarial produzir esse tipo de recurso. O máximo que uma empresa pode fazer é tentar aumentar o seu capital social interno, promovendo métodos de gestão que requeiram iniciativa individual, empreendedorismo coletivo e protagonismo de seus colaboradores. E, fundamentalmente, introduzindo padrões de organização em rede e modos de regulação democráticos dentro da organização.

Ocorre que o capital social flui de um âmbito (público-social) que é maior do que a empresa (privada). Ele é um ambiente sobre o qual a empresa não tem autonomia para interferir sozinha. Uma empresa só poderá fazer isso se estiver aliada a uma parte da sociedade civil – aos cidadãos e suas organizações – da localidade onde está situada.

Portanto, quando se diz que a empresa deve investir no social, isso significa que ela deve investir no capital social da sociedade. Porque a chamada sociedade civil é a única forma de agenciamento capaz de produzir superávits de capital social, ou seja, é o único setor que produz mais capital social do que consome. São esses excedentes de capital social, gerados no ambiente em que a empresa está imersa, que podem ser importados pela empresa a baixo custo, desde que a empresa tenha os canais adequados para tanto. Esses canais são as relações que a empresa conseguiu estabelecer com a sociedade por meio do exercício da sua responsabilidade social. Por eles poderão fluir, tanto o capital humano quanto o capital social de que a empresa precisa, mas que, sozinha, não pode produzir totalmente.

Pode-se ver, sem grande dificuldade, que a explicação faz sentido. Uma empresa que se aliou à comunidade por meio do exercício da sua responsabilidade social será tratada de modo diferente pelo público. Suas múltiplas alianças, estabelecidas com lideranças da sociedade civil, com governos e outras instâncias estatais, a propósito desse trabalho, ao possibilitarem uma interação menos conflitiva e adversarial com as populações, serão capazes de reduzir os famosos custos de transação. E, muito além disso, abrirão novas possibilidades de negócios ou de novos modos de fazer negócios, fortalecendo aquela que será a unidade empresarial do futuro (uma comunidade formada dentro da rede de stakeholders).

É claro que existem maneiras mais eficazes e menos eficazes de fazer isso. Se uma empresa exerce sua responsabilidade empresarial doando cadeiras de rodas para a população, o efeito sistêmico de sua atuação em termos do incremento do capital social será muito pequeno (ou, em alguns casos, poderá até ser negativo: se ela só fizer isso de modo assistencialista, por exemplo). Mas se a empresa investe no ambiente como um todo, lançando mão de programas inovadores de investimento em capital social, como os programas de indução do desenvolvimento local ou setorial, aí os resultados da sua atuação serão bem mais expressivos.

Com todas as suas limitações e imperfeições, a matriz demonstrativa apresentada aqui – baseada na interação de vários capitais econômicos e extra-econômicos, com destaque para o papel sistêmico do capital social – parece ser mais orgânica, do ponto de vista da racionalidade de uma empresa, do que aquelas que procuram juntar a posteriori vários elencos de ações setoriais que não têm muita relação entre si, como se combinando 800 miligramas de operação econômica, com 150 miligramas de preocupação ambiental e 50 miligramas de ação social, pudéssemos desencadear algum tipo de reação química capaz de catalisar um processo sustentável. Infelizmente, fórmulas como essa não poderão produzir 1 grama de sustentabilidade.

UMA NOVA MATRIZ DE SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL

Vamos partir da idéia de que sustentabilidade é o novo nome do desenvolvimento quando esse conceito é tomado de um ponto de vista sistêmico. Desse ponto de vista o (fenômeno de mudança social que interpretamos como) desenvolvimento é resultado da interação de vários fatores.

Na “equação do desenvolvimento”, para dizer assim, comparecem muitas variáveis, para além daquelas tradicionalmente consideradas pelo pensamento econômico ortodoxo (como a renda e a riqueza). Vários capitais, em sentido metafórico, foram então aventados para descrever esses fatores ou variáveis extra-econômicas, considerados como externalidades, como o capital natural, o capital humano e o capital social. Um modelo do desenvolvimento baseado na interação desses vários capitais pode fornecer uma boa matriz explicativa da sustentabilidade empresarial. Vejamos.

Em termos muito simples, pode-se dizer que sustentabilidade é a capacidade de investir no (para repor o) que se consome em termos de desenvolvimento. Considerando que a equação do desenvolvimento tem como fatores ou variáveis diversos tipos de recursos, econômicos e extra-econômicos, trata-se de investir nesses diversos tipos de capitais (stricto e lato sensu); ou seja, no capital financeiro (renda, produto), no capital físico (riqueza, propriedade produtiva), no capital natural (meio ambiente), no capital humano (empreendedorismo individual, educação, saúde etc.) e no capital social (cooperação, empoderamento promovido pelas redes sociais e liberdade ensejada pela democratização das relações). Tratar-se-ia, portanto, de fazer diferentes tipos de “poupanças” nestes cinco fatores. A tabela abaixo ilustra a matriz:



A partir dessa matriz poderíamos concluir que onde o Resultado da diferença Produção + (mais) Aquisição – (menos) Consumo for negativo é necessário: i) aumentar a produção (própria) ou a aquisição; ou ii) reduzir o consumo; ou iii) investir (em outros setores) para aumentar a produção ou para reduzir os custos da aquisição.

Ocorre que nem todos os capitais acima podem ser produzidos pela empresa em quantidade suficiente para suprir seu consumo (é o caso dos capitais extra-econômicos) e que, assim, trata-se de reduzir os custos de aquisição investindo nos setores que podem produzi-los em quantidade maior do que consomem para poder usar os excedentes.

Se uma empresa tiver que investir recursos financeiros próprios para produzir ou adquirir todo o capital natural, o capital humano e o capital social que consome, é óbvio que isso afetará negativamente o seu resultado financeiro. Como conseqüência, ela gerará menos lucros para os seus acionistas e terá mais dificuldades de remunerar melhor seus colaboradores. É por essa razão que uma empresa de inovação tecnológica tem mais chances de sustentabilidade se estiver instalada em Berkeley do que em Caruaru (Berkeley tem mais capital humano do que Caruaru). Ou que uma empresa de seguros terá mais chances de sustentabilidade em Berna do que em Vitória do Espírito Santo (Berna tem mais capital social do que Vitória).

Caberia cuidar para que os resultados na tabela acima fossem positivos, não apenas no tocante às colunas dos capitais econômicos (capital financeiro e capital físico) e sim também no que se refere às outras colunas, daqueles capitais extra-econômicos, que têm a ver com o ambiental (capital natural), com o social e com o político (capital humano e capital social).

Não se trata necessariamente de gerar superávits cada vez maiores de todos os tipos de capitais, mas de encontrar um valor ótimo relativo de cada um deles (ou intervalos de oscilação de cada capital em torno de valores ótimos relativos). Essa “oscilação regulada”, vamos dizer assim, seria o mecanismo próprio da sustentabilidade.

Dessarte, valores mais baixos de capital humano na empresa poderiam ser compensados por valores mais altos de capital social no seu entorno (na localidade onde a empresa está instalada). E valores mais baixos de capital natural no entorno da empresa poderiam ser compensados por valores mais altos de capital humano (como ocorre em Singapura em relação à Ucrânia, à Argentina ou mesmo ao Brasil – Estados-nações cujo capital natural é muito mais alto do que o daquela florescente cidade-Estado do sudeste asiático (conquanto ela mesma seja uma singularidade, na medida em que possui um sistema autocrático); no entanto, Singapura, ao contrário dos outros países citados aqui, está na ponta da inovação mundial).

É óbvio que essa matriz é imperfeita porquanto não revela as relações entre os diversos tipos de capitais que interagem necessariamente entre si e nem os fatores que devem ser considerados na composição de cada tipo de capital. Trata-se apenas de uma matriz demonstrativa, mais de natureza qualitativa do que quantitativa e que foi elaborada para efeitos explicativos, não podendo servir de base para a realização de qualquer espécie de contabilidade da sustentabilidade.

Além disso, a matriz apresentada acima é imperfeita por uma razão mais profunda: ela iguala os diversos tipos de capitais, como se fossem entes de mesma natureza ou com o mesmo status, o que não combina com o que já sabemos sobre o capital social (ou sobre as redes sociais). Os investimentos em capital social têm um efeito sistêmico sobre os demais fatores e, assim, ao fazer a sua “contabilidade” estamos, na verdade, aferindo a capacidade do conjunto de se desenvolver.

A despeito dessas imperfeições, a matriz proposta, mesmo que não revele, permite a percepção de relações que outros modelos explicativos não ensejam, não impedindo, ademais, que se atribua ao capital social o papel sistêmico que ele desempenha. Em outras palavras, com a ajuda de uma matriz como essa podemos começar a explicar as coisas, encarando aqueles por quês que raramente são respondidos.

SOBRE A RESPONSABILIDADE POLÍTICA

No post O DESAFIO DO EXERCÍCIO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL E POLÍTICA afirmamos que até agora nossas empresas tiveram uma atuação política, vamos dizer assim, pouco responsável. Pensaram nos seus próprios interesses imediatos, pensaram no que seria “bom para os negócios” no curto prazo, quer dizer, não pensaram em termos de sustentabilidade.

Até agora o setor empresarial vem atuando na política, de modo disfarçado (ou nunca completamente assumido) por três vias principais: a) financiando candidaturas para garantir a boa-vontade dos representantes eleitos e a sua sintonia com as necessidades setoriais (por exemplo, da indústria, do comércio, da agricultura, dos transportes e dos serviços financeiros); b) articulando bancadas parlamentares que defendam os interesses do empresariado; e c) encomendando (com certa dose de ingenuidade) estudos de alto nível sobre os grandes impasses estratégicos do país e ofertando tais estudos às autoridades.

É verdade que têm surgido, recentemente, algumas ações mais consistentes e mais promissoras. Uma parte, ainda pequena, do empresariado, vem procurando influir na pauta política a partir da mobilização empresarial de forças sociais expressivas, entendendo que tais forças não podem ser arregimentadas somente dentro das fronteiras das organizações corporativas patronais ou empresariais. Outra parte, também bastante minoritária ainda, vem procurando mobilizar a sociedade em torno de uma agenda estratégica que, partindo da defesa da democracia e do desenvolvimento, às vezes consegue chegar ao detalhamento de propostas concretas para a reforma fiscal, para a segurança jurídica, para a segurança pública, para a infra-estrutura, para a educação, para a governança pública e para as reformas política e administrativa.

Mas o empresariado – no Brasil e em outros países – ainda está longe de assumir completamente a sua responsabilidade política. Para tanto seria necessário que aprendesse a articular politicamente os seus interesses e, sobretudo, as causas de suas empresas, sabendo que empresas em uma realidade social complexa não têm como abrir mão da política. E que conseguisse também exercitar, permanentemente (e não apenas em épocas eleitorais), uma legítima ação política empresarial, que vai além, muito além, da defesa de interesses corporativos, por mais justos que sejam (pois se o setor empresarial não assumir protagonismo, falando para os outros dois setores – para o primeiro setor (o Estado) e para o terceiro setor (a Sociedade Civil) – não se transformará em um ator político capaz de tomar iniciativas para construir arranjos mais virtuosos entre os diversos atores desses setores).

Mas, além disso, seria necessário que as empresas promovessem uma verdadeira reinvenção organizacional, para adequar a sua estrutura e o seu funcionamento aos novos desafios da sustentabilidade (o que implica mudar os seus padrões de organização – iniciando a transição da velha empresa-mainframe para a nova empresa-rede que será, sem dúvida, a empresa do futuro – e mudar também os seus modos de regulação de conflitos, democratizando progressivamente suas regras de funcionamento e seus procedimentos internos e externos).

Por último, seria necessário que a empresa promovesse projetos sustentáveis ou programas de sustentabilidade, pois não é apenas pagando impostos, gerando empregos e produzindo riquezas, protegendo o meio ambiente e tentando melhorar a vida das pessoas individualmente, que o setor empresarial poderá cumprir o seu papel promotor do desenvolvimento.

Na verdade, trata-se do seguinte: além de exercer a responsabilidade social de uma nova maneira, a empresa em busca da sua sustentabilidade deve passar da responsabilidade social para a responsabilidade política.

PRECISAMOS DE UM NOVO CONCEITO DE RESPONSABILIDADE SOCIAL

No post anterior comentamos o quarto e último desafio da sustentabilidade colocado para as empresas atuais: o exercício da responsabilidade social e política.

No entanto a questão da responsabilidade corporativa - chamada freqüentemente de responsabilidade social - ainda vem sendo bastante maltratada. Do ponto de vista das novas exigências da sustentabilidade, precisamos, ao que tudo indica, de um novo conceito de responsabilidade social. De uma nova maneira de realizar o chamado investimento social privado. De uma nova forma de exercer a responsabilidade corporativa.

Para começar, é necessário ver que responsabilidade social não é apenas corporativa. Não é uma coisa para ser feita somente por empresas. Todos os cidadãos e as organizações de todos os setores (empresas, governos, sociedade civil ou terceiro setor), estão chamados a exercer a sua responsabilidade social no mundo contemporâneo.

Em segundo lugar, é necessário ver que responsabilidade social não é apenas influir ou agir na chamada “área social” (não é somente implementar ou financiar programas ou ações de assistência social, de educação, de saúde, de saneamento, de alimentação e nutrição ou, mesmo, de criação de postos de trabalho ou de geração de renda).

Responsabilidade social é responsabilidade com o desenvolvimento de uma sociedade em termos mais globais ou sistêmicos. Chama-se responsabilidade social porque se aplica a sociedades e não porque atue setorialmente naquilo que se convencionou chamar de “área social”. Envolve, assim, todos as dimensões do desenvolvimento: sociais, econômicas, culturais, físico-territoriais e ambientais, político-institucionais e científico-tecnológicas. E é um investimento em todos os fatores do desenvolvimento: sociais, humanos, econômicos e naturais.

Uma nova concepção do desenvolvimento está surgindo nas últimas décadas, baseada na visão sistêmica dos processos sociais e nas múltiplas relações intersetoriais que configuram um padrão complexo de interdependências entre o Estado, o mercado e a sociedade civil. Segundo tal concepção, desenvolvimento agora envolve capacidade de inovação, de fazer parcerias, de criar ambientes favoráveis à sinergia e de aproveitar as inusitadas potencialidades da simbiose. Esses são os novos conceitos-chave da mudança da velha idéia de crescimento para uma nova concepção de desenvolvimento.

Vamos nos concentrar, entretanto, na responsabilidade corporativa, na chamada responsabilidade social das empresas. Por que é necessário que as empresas pratiquem responsabilidade social se já pagam tantos impostos, criam empregos, disponibilizam produtos e serviços e dinamizam a economia gerando crescimento e contribuindo para a prosperidade econômica de uma sociedade?

É preciso fazer alguma coisa, além disso? O quê? Por quê? Como? E o que tudo isso tem a ver com a tão almejada sustentabilidade?

Para responder essas questões é bom ver como vem evoluindo a noção de responsabilidade social no meio empresarial.

A evolução da idéia de responsabilidade social no meio empresarial

É crença corrente que a idéia de responsabilidade social surgiu inicialmente como um apelo de natureza ética, dirigido ao mundo empresarial. Seria uma maneira de os empresários devolverem à sociedade onde vivem, na forma de investimento social privado (em saúde, educação, assistência a crianças, idosos, pessoas em situação de risco e portadoras de necessidades especiais etc.), uma parte dos lucros que conseguiram realizar em seus negócios.

Houve – e ainda há – resistências a essa idéia. Muitos argumentaram que os empresários não têm nenhuma obrigação de devolver nada à sociedade além dos altos impostos que já pagam, dos empregos que geram, dos bens e serviços que produzem e da dinamização da economia que sua atividade desencadeia.

Outros – sem refugar a idéia – salientaram que a principal obrigação dos empresários é remunerar bem o trabalho dos seus colaboradores e o capital dos seus sócios ou acionistas.

Foi preciso mais de uma década de discussões e iniciativas, para que algumas pessoas começassem a descobrir que praticar a responsabilidade social corporativa seria uma boa maneira de a empresa fortalecer os seus laços com a sociedade e ao mesmo tempo direcioná-los para o desenvolvimento por meio de uma adequada gestão da sua rede de stakeholders (termo cunhado por Edward Freeman, em 1984, no artigo “Strategic Management: a stakeholder aproach”, para designar qualquer pessoa que seja afetada, ou possa ser afetada, pelo desempenho de uma organização): seus proprietários, acionistas e dirigentes, seus funcionários, seus fornecedores, outras empresas e organizações coligadas ou parceiras, o público alvo de suas ações de responsabilidade social, seus clientes e consumidores de modo geral e as populações afetadas pela sua atuação.

O fato é que, por uma ou outra razão, o movimento de responsabilidade social tem crescido no meio empresarial.

Em primeiro lugar, talvez, pela aceitação do chamamento ético à responsabilidade. Muitos empresários, por uma questão de postura pessoal, acolheram tal apelo.

Em segundo lugar, em virtude do surgimento e da expansão de novas formas de convivência e de sociabilidade que estão estimulando o trabalho voluntário, a doação de tempo e recursos para questões sociais e ambientais. Alguns empresários passaram a admirar essas novas práticas, baseadas em valores como cooperação e solidariedade, que começaram a ocorrer, inclusive, dentro de suas empresas ou a serem exercidas por seus empregados em outros ambientes. De certo modo, foram contagiados por elas e passaram, então, a considerar seriamente a possibilidade de se engajar em ações semelhantes, tanto individualmente, quanto coletivamente, destinando uma parte dos recursos auferidos com seus negócios para investimentos em causas sociais.

Em terceiro lugar em razão da emergência de uma nova visão das relações entre o mercado e a sociedade – compartilhada hoje por muitos donos de empresas, acionistas e CEOs –, segundo a qual é altamente desejável manter sintonia com as inovações sociais contemporâneas. Uma empresa moderna, sintonizada com a contemporaneidade, não pode sê-lo apenas nos seus negócios, nos seus produtos ou serviços e nos seus processos de produção e de gestão. Deve, além disso, manter uma relação com os seus funcionários e com o ambiente externo sintonizada com as inovações. Isso, por certo, tem a ver com a imagem da empresa, mas também tem a ver com a sua missão, o seu propósito, a sua razão de ser. Portanto, isso tem a ver com a capacidade da empresa de mobilizar capital humano e capital social, interno e externo.

Alguns empreendedores empresariais aderiram à idéia e à prática da responsabilidade social porque querem ser modernos, querem estar na vanguarda, querem participar das inovações e, sobretudo, não querem ficar fora da nova onda e ser considerados ultrapassados.

Ocorre que muitas empresas – talvez a maioria – resolveram responder ao apelo da responsabilidade social com o chamado marketing social. Assim, passaram a exercer o seu investimento social privado também (ou principalmente) como um negócio. Viram que era bom para os negócios que a empresa aparecesse como uma empresa responsável socialmente. Ou viram, pelo menos, que o contrário não era muito bom para os negócios: empresas que não estão comprometidas – ou que não aparecem publicamente como comprometidas – com a qualidade de vida do meio social em que se inserem, dos seus stakeholders, sobretudo de seus clientes ou dos destinatários finais de seus produtos ou serviços, começaram a ficar mais vulneráveis a questionamentos dos consumidores e da opinião pública em geral, tal como já acontece, há mais tempo, com empresas não comprometidas com a conservação do meio ambiente natural.

De qualquer modo, há quem sustente, baseando-se em fortes evidências, que a adesão crescente do empresariado ao conceito e à prática da responsabilidade social, deve-se à consciência de que não fazer isso pode acabar afetando negativamente os resultados econômicos da empresa.

O fato de muitos empresários terem aderido à responsabilidade social por razões de marketing talvez não chegue a ser um grande problema. É claro que se pode dizer que, ao proceder assim, estamos deixando transbordar a lógica do mercado para a sociedade. Ou que, ao conceberem e praticarem dessa forma a responsabilidade social, muitas empresas estão perdendo preciosas oportunidade de se desenvolver e de contribuir para o desenvolvimento da sociedade a que pertencem. Mas deve-se compreender que as razões de marketing constituem a racionalidade e a “lógica” de funcionamento do mercado e não há como delas se desvencilhar quando se vem do mercado. Em outras palavras, não é de estranhar que, pelo menos inicialmente, os empresários tenham enviado o assunto para os departamentos de marketing de suas empresas. Todo o problema aqui está em saber se, conduzido como propaganda, o exercício da responsabilidade corporativa pode cumprir aquele papel imprescindível e insubstituível que cabe à participação empresarial, para o desenvolvimento da sociedade e das próprias empresas.

Sobre isso ainda há muita discussão inconclusa. Alguns acham que a participação empresarial constitui, nas sociedades contemporâneas, um aporte necessário, imprescindível e insubstituível, porque os Estados estão falidos e os recursos necessários para promover o desenvolvimento social estão nas empresas. O exercício da responsabilidade corporativa teria, assim, um caráter supletivo e se justificaria pela ausência da ação estatal verificada nos dias de hoje. Existem empresas, por exemplo, que se dedicaram a asfaltar ruas e a fazer obras de saneamento básico. Todavia, a maior parte dos atores empresariais, felizmente, já compreendeu que, se o seu aporte às ações que são próprias de governos está sendo considerado como necessário, isso se deve ao fato de que o mundo empresarial desenvolveu padrões de excelência em gestão e em estratégia para a obtenção de resultados em sistemas complexos (como são os mercados atuais) que podem se somar àqueles desenvolvidos pela moderna gestão pública.

Boa parte do empresariado já compreendeu que não é porque o Estado esteja, supostamente, se retraindo ou sendo pouco eficaz, pouco eficiente ou pouco efetivo, que as empresas devem ser chamadas a vir “tapar o buraco”. E uma parcela crescente já sabe que uma empresa jamais poderá (e deverá) substituir o Estado ou compensar a sua falta. Não porque a empresa, pelo fato de ser uma organização privada, não possa prover bens e serviços públicos (o que seria tão óbvio quanto errado) e sim a partir da compreensão de que empresas e Estado são tipos diferentes de agenciamento, têm “lógicas” diversas e suas ações são presididas por racionalidades distintas. Já se viu que o conhecimento acumulado por uma empresa, seu processo de aprendizado, sua experiência, sua visão da sociedade e seu modo de intervir, não são os mesmos do Estado (e dos governos). Essa talvez seja a principal razão pela qual, salvo raras exceções, bons empresários não costumam se transformar em bons administradores públicos.

Mesmo assim, algumas empresas ainda ficam tentadas a replicar o padrão de relação do Estado com a sociedade, caindo nos vícios desse tipo de relação (como o assistencialismo, o clientelismo e a centralização, por exemplo). Hoje já é bem mais raro, mas ainda se pode encontrar empresas doando cadeiras de rodas, distribuindo sopa para os pobres (às vezes até industrializadas, enlatadas) ou cestas de Natal nas periferias das cidades.

Se bem que a maioria dos empresários já não encare mais o investimento social da empresa como a simples aceitação de um apelo ético (em virtude do “bom coração” ou da “consciência culpada” de seus donos) e que uma parte significativa do setor empresarial já saiba que esse investimento tem razões que vão além da visão instrumental, orientada pelo marketing, de que isso “é bom para os negócios”, ainda são muito poucos os que compreendem que o investimento social da empresa tem a ver com o desenvolvimento da empresa como um todo, com a sua sustentabilidade; ou seja, com as condições estruturais para que a empresa possa ser capaz de conservar a sua adaptação a um mundo em acelerada mutação.

A responsabilidade corporativa ainda é definida de modo instrumental: seja pelos que a compreendem como capacidade da empresa de criar valor nas suas redes de relações; seja pelos que a encaram como gestão preventiva de impactos econômicos, ambientais, sociais e políticos (uma visão meio defensiva e, além disso, incompleta; melhor seria dizer: gestão proativa dos recursos e dos impactos econômicos, ambientais, sociais e políticos); seja, por último, pelos que a defendem como uma expressão da sintonia da empresa com o desenvolvimento sustentável por meio do compromisso com uma agenda nacional, com uma agenda local (realizando investimentos sociais privados em prol do desenvolvimento na localidade onde a empresa está sediada ou de alguma outra localidade ou setor adotados por ela) e com uma agenda de engajamento dos diversos públicos internos da empresa (por meio do estímulo às doações individuais de recursos dos seus colaboradores e da promoção do voluntariado corporativo).

Independentemente dessas diversas conceituações de responsabilidade social, tudo ainda é feito para que a empresa continue existindo com a mesma cabeça e com o mesmo corpo (e, sobretudo, com as mesmas relações entre sua cabeça e seu corpo). A responsabilidade social é mais um instrumento para que ela – a empresa - não perca terreno em relação aos seus concorrentes, sem ter que mexer muito nos seus padrões de organização e funcionamento. Se não fosse assim, os encarregados do assunto dentro das empresas deveriam participar do seu núcleo estratégico decisório (o que é raro: quando não está no marketing – o que já é um avanço – esse pessoal é alocado em algum departamento lateral, como mais um braço da empresa).

Tudo isso revela – na prática, para além dos discursos construídos, decorados e proferidos “para inglês ver” – uma incompreensão do fato de que uma empresa só pode ser sustentável se for capaz de exercitar sua responsabilidade corporativa. Ora, já existem pelo menos três razões para sustentarmos isso. A primeira razão é que a sustentabilidade de uma empresa tem a ver com as relações entre a sua atuação e o ambiente externo à empresa (o mundo, o país, a localidade onde está situada) e, assim, a empresa deve assumir na prática a responsabilidade pelos impactos (econômicos, sociais, ambientais e políticos) que a sua atuação produzirá nesse ambiente externo. A segunda razão, mais forte, é que a sustentabilidade de uma empresa tem a ver com as relações entre o ambiente interno e o ambiente externo à empresa (e ela deve conseguir manter uma congruência dinâmica entre esses dois ambientes, assumindo e exercendo a responsabilidade por monitorar essa relação e modificar continuamente a sua estrutura e a sua dinâmica para manter tal congruência). Por último, a terceira razão, mais forte ainda, é que não é a empresa isoladamente que pode ser sustentável e sim a sua rede de relações, da qual participam seus diversos públicos, internos e externos e, assim, a empresa deve assumir a responsabilidade por tecer e animar essa rede de modo a permitir a emergência de processos sistêmicos de coordenação capazes de ensejar a conservação da sua adaptação e da sua organização.

Em suma, a compreensão que falta, para que avancemos para um conceito contemporâneo de responsabilidade social sintonizado com as novas exigências da sustentabilidade, é a de que o que chamamos de sustentabilidade da empresa (ou da sua rede de relações) ocorre somente enquanto a empresa se desenvolve.

Isso exige uma nova compreensão do desenvolvimento. Embora o conceito de desenvolvimento evoque a idéia de movimento (de formação, crescimento e mudança – que são movimentos) em direção à sustentabilidade, não se compreendeu ainda que pode haver movimento sem haver desenvolvimento. Por exemplo, o simples crescimento de tamanho (no caso de uma empresa: de faturamento, de número de funcionários, de número de filiais) é um movimento, mas não é, por si só e necessariamente, desenvolvimento. Uma empresa pode crescer, crescer, crescer e... desaparecer (como naquela anedota do doente que “morreu, mas morreu bem melhor”). Por isso que desenvolvimento é algo mais do que crescimento. E no caso de sistemas formados por seres humanos, desenvolvimento só é desenvolvimento mesmo se for humano, social e sustentável. Essa é uma nova concepção de desenvolvimento, que vale para qualquer coletividade humana estável, seja uma sociedade, seja uma organização (como uma empresa).

E ela pode contribuir para colocar no lugar a noção, ainda tão maltratada nos meios empresariais, de responsabilidade social.

O DESAFIO DO EXERCÍCIO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL E POLÍTICA

Neste post vamos concluir os comentários sobre os desafios (colocados no artigo OS GRANDES DESAFIOS DA SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL) para as empresas neste início do século 21: induzir o desenvolvimento (da empresa e do meio em que a empresa atua, elaborando, articulando e executando programas de sustentabilidade); fazer a gestão democrática da rede dos seus stakeholders (iniciando a transição do seu padrão de organização – de mainframe para network – e democratizando progressivamente seus procedimentos internos e externos); promover o voluntariado em torno de uma causa; e, exercer de uma nova maneira a sua responsabilidade social e assumir a sua responsabilidade política.

Neste artigo vamos abordar o quarto e último desafio: o exercício da responsabilidade social e política.

No que tange a esse quarto desafio, as questões constituiriam uma espécie de resumo do que já foi apresentado nos posts anteriores: como formular uma agenda de responsabilidade social e uma agenda de responsabilidade política que contemplem as questões-chave colocadas pelos outros desafios?

Mas aqui também o por quê deve vir antes do como e temos que colocar antes algumas perguntas básicas. Por que uma empresa deve ir além do exercício da sua responsabilidade social, assumindo a sua responsabilidade política? O que isso, afinal, tem a ver com a conquista da sustentabilidade empresarial?

Na verdade, trata-se do seguinte: além de exercer a responsabilidade social de uma nova maneira, a empresa em busca da sua sustentabilidade deve passar da responsabilidade social para a responsabilidade política.

Capital social, apesar do nome que sugere uma natureza econômica (capital) ou sociológica (social), tem natureza política. Tudo o que pode aumentar ou diminuir o fluxo do capital social, em uma organização ou em uma sociedade, depende da política, ou seja, dos padrões de organização e dos modos de regulação de conflitos.

Organização hierárquica e modos autocráticos de regulação de conflitos impedem a formação de capital social. Clientelismo, assistencialismo, centralização e clima adversarial, exterminam capital social. Corrupção e banditismo – sobretudo quando praticados de modo sistêmico, por partidos ou por Estados – pervertem a política, degeneram as instituições e criam grandes obstáculos ao desenvolvimento humano e social. E, sobretudo, corroem nas organizações empresariais a sua capacidade de inovar para se desenvolver. Ao invés de investir em pesquisa e desenvolvimento para enfrentar saudavelmente a concorrência, as empresas ficam seduzidas pelo ganho fácil que pode advir de sua associação com os poderosos ou ficam tentando influir para reduzir seus riscos, obter garantias, concessional loans, às vezes privilégios, reservas e outras proteções estatais que falsificam as regras de mercado. Não raro, nessa associação incestuosa com um poder político pervertido, as empresas são também corrompidas.

Uma empresa deve assumir a sua responsabilidade política evitando a reprodução dessas práticas exterminadoras de capital social, tanto interna, quanto externamente, cuidando também do que se passa no seu entorno local, estadual, nacional, regional ou mundial. Essa também é uma exigência – talvez a principal exigência – da sustentabilidade. Não pode haver empresa muito boa (em termos de boas chances de continuar existindo) em um ambiente muito ruim (em termos do baixo nível do capital social existente no seu entorno).

Se assim não fosse, os países mais desenvolvidos do mundo, em termos de desenvolvimento humano (IDH: PNUD), de competitividade e desenvolvimento econômico (GCI: WEF) e de sintonia com as inovações contemporâneas e desenvolvimento tecnológico (GI: AT Kearney/Foreing Policy) não seriam também os que possuem regimes democráticos, vigência de Estado de direito e respeito ao império da lei, robustez institucional (segurança jurídica e estabilidade regulatória), empresas mais longevas e sociedades mais cooperativas. Basta dar uma olhada na lista que surge do cruzamento desses indicadores. (Em ordem alfabética): Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Coréia do Sul, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda, Hong Kong, Irlanda, Islândia, Israel, Itália, Japão, Luxemburgo, Noruega, Nova Zelândia, Portugal, Reino Unido, Singapura, Suécia e Suíça. Curiosamente, porém significativamente, países cuja promessa de pujança econômica anda tão proclamada e elogiada nos dias que correm, como os integrantes do grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), não constam da lista dos mais desenvolvidos (e com mais chances de sustentabilidade). E, obviamente, também não constam da lista países em que o capital social vem sendo dilapidado por regimes políticos ditatoriais (como Cuba e Coréia do Norte), protoditatoriais (como Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e a própria Federação Russa, já citada), ou por regimes manipuladores (como a Argentina e outras democracias formais parasitadas por governos populistas). Ora, isso não pode ser por acaso, pode?

Até agora nossas empresas tiveram, como já foi mencionado neste texto, uma atuação política, vamos dizer assim, pouco responsável. Pensaram nos seus próprios interesses imediatos, pensaram no que seria “bom para os negócios” no curto prazo, quer dizer, não pensaram em termos de sustentabilidade.

Por certo, empresa sustentável é, antes de qualquer coisa, aquela que dá lucro: mas não somente hoje e sim também amanhã, e depois de amanhã, e depois...

Parece óbvio que responder essas questões-chave colocadas pelos grandes desafios da sustentabilidade exige uma dose considerável de esforço coletivo, de experimentalismo inovador, de tentativa e erro, de acúmulo de fracassos como condição para o sucesso. Mas não há outra saída.

A sustentabilidade jamais estará dada, ela deverá ser permanentemente conquistada e talvez se confunda com o caminho que percorremos na sua busca. O importante é não parar no caminho, não interromper a busca, não ficar nem um instante sem se mover. Quem deixa de se desenvolver (de inovar), morre. Essa é grande lição da sustentabilidade que aprendemos com os seres vivos.

De todo modo, para além dos árduos esforços que todos ainda deveremos fazer, alguma coisa, certamente, poderá ser facilitada pela compreensão mais profunda e mais abrangente do problema. É possível elaborar novas matrizes de sustentabilidade que articulem os grandes desafios e as questões-chave colocadas por esses desafios para as empresas atuais de uma forma que aumente a nossa compreensão.

Com base nos elementos conceituais inovadores aventados listados abaixo, podemos encontrar uma nova matriz de sustentabilidade empresarial:

· Sustentabilidade é a capacidade de um sistema de mudar de acordo com a mudança das circunstâncias.

· Só é sustentável o que consegue conservar sua organização e sua adaptação a um meio em contínua mudança.

· Crescimento (ou expansão, mudança quantitativa) não é a mesma coisa que desenvolvimento (mudança qualitativa). Nem tudo que cresce é sustentável: só é sustentável o que se desenvolve continuamente.

· Desenvolvimento é sempre co-desenvolvimento. Desenvolvimento é o resultado da ação (ou da dinâmica) de uma rede de co-desenvolvimentos interdependentes. Só se desenvolve quem promove o desenvolvimento (do meio em que está inserido).

· Desenvolvimento é sempre desenvolvimento humano e social. Sociedades só se transformarão em comunidades sustentáveis na medida em que seus padrões de organização e de convivência social forem capazes de constituir ambientes favoráveis ao desenvolvimento humano e social, o que depende da maneira como as pessoas interagem (padrão de organização) e de como regulam seus conflitos (modo de regulação). Quanto mais padrões de organização em rede (distribuída) e modos de regulação (democráticos) estiverem presentes, maiores serão as chances de uma organização não apenas crescer, mas se desenvolver.

· Desenvolvimento é algo que acontece em sociedades humanas, nas redes que se formam nessas sociedades, nas redes sociais. Redes sociais são capital social, um tipo de capital que não é levado em conta pela economia do crescimento, mas que é fundamental para uma “economia do desenvolvimento”.

· Capital social é um recurso para o desenvolvimento aventado recentemente para explicar por que certos conjuntos humanos conseguem criar ambientes favoráveis à boa governança, à prosperidade econômica e à expansão de uma cultura cívica capaz de melhorar suas condições de convivência social. Como tais ambientes são ambientes sociais cooperativos, capital social é, fundamentalmente, cooperação ampliada socialmente. Ora, rede social (distribuída) é um meio pelo qual (ou no qual) a cooperação pode se ampliar socialmente (inclusive, em certas circunstâncias, convertendo competição em cooperação).

· Sustentabilidade é sinônimo de desenvolvimento (tomado a partir de uma perspectiva sistêmica).

· A sustentabilidade das sociedades humanas é o novo nome do desenvolvimento, uma característica do padrão dinâmico de rede e, ao mesmo tempo, um dos efeitos do processo de democratização.

· O modelo de desenvolvimento compatível com o conceito de sustentabilidade é um modelo regulacional (ao invés do modelo transformacional e do modelo variacional): o que chamamos de desenvolvimento é algo que acontece em rede e é essa rede que regula a adaptação, mudando seu programa de adaptação, ou seja, aprendendo (e isso é o que se chama de sustentabilidade ou desenvolvimento de um ponto de vista sistêmico).

· Assim como nada (ou ninguém) pode se desenvolver sozinho, um sistema também não pode ser sustentável por razões intrínsecas (ou a partir da sua dinâmica endógena), mas somente no conjunto de relações que o ligam a outros sistemas.

· Só sistemas dinâmicos complexos que adquiriram características adaptativas – apresentando a estrutura de rede distribuída – podem ser sustentáveis.

· Nenhuma empresa (tomada como uma unidade administrativo-produtiva isolada) pode ser sustentável. O que é sustentável é o sistema composto pela empresa e por todos aqueles nela interessados (ou seja, a rede dos seus stakeholders).

· Nenhuma empresa pode alcançar sustentabilidade por razões estritamente empresariais, apenas em virtude da dinâmica de mercado. Portanto, para além da racionalidade competitiva (que caracteriza o mercado), a empresa deve incorporar outras racionalidades (como a cooperativa, presente na sociedade civil e a normativa, presente na esfera da política pública).

No elenco acima estão reunidos os elementos necessários para uma abordagem mais orgânica da problemática da sustentabilidade empresarial e, inclusive, para o estabelecimento de uma relação intrínseca entre a busca da sustentabilidade (organizacional) e o exercício da responsabilidade social (corporativa). Tratar-se-ia agora de encadeá-los em uma argumentação consistente. Na continuidade do presente texto, vamos procurar fornecer mais elementos que facilitem a realização dessa tarefa.

O DESAFIO DA PROMOÇÃO DO VOLUNTARIADO EM TORNO DE UMA CAUSA

Vamos continuar comentando os desafios (colocados no artigo OS GRANDES DESAFIOS DA SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL) para as empresas neste início do século 21: induzir o desenvolvimento (da empresa e do meio em que a empresa atua, elaborando, articulando e executando programas de sustentabilidade); fazer a gestão democrática da rede dos seus stakeholders (iniciando a transição do seu padrão de organização – de mainframe para network – e democratizando progressivamente seus procedimentos internos e externos); promover o voluntariado em torno de uma causa; e, exercer de uma nova maneira a sua responsabilidade social e assumir a sua responsabilidade política.

Neste artigo vamos abordar o terceiro desafio: a promoção do voluntariado em torno de uma causa.

Com relação a esse terceiro desafio, temos também um conjunto de questões práticas: como rever as definições estratégicas básicas da empresa à luz das novas exigências de sustentabilidade, reformulando com clareza os seus valores centrais e o seu objetivo? Como definir a causa da empresa? E como promover o voluntariado dentro e fora da empresa em torno da sua causa? Essas são as questões-chave.

No entanto, existem perguntas que deveriam ser respondidas primeiro. Por que razão a empresa deve ter uma causa? Não basta a sua visão, a sua missão, os seus valores? E por que se diz que a empresa deve promover o voluntariado (interna e externamente)?

Um dos principais elementos do capital humano é a capacidade que as pessoas têm de fazer coisas novas, exercitando a sua imaginação criadora – o seu desejo, sonho e visão – e se mobilizando para adquirir os conhecimentos necessários, capazes de permitir a materialização do desejo, a realização do sonho e a viabilização da visão. Ora, isso tem um nome: chama-se ‘empreendedorismo’. Portanto, para ter um ambiente interno favorável ao desenvolvimento, a empresa precisa ter, em primeiro lugar, um ambiente favorável à inovação. Mas um ambiente favorável à inovação depende de fatores internos e externos. Os fatores internos favoráveis à inovação dependem da liberdade para criar e da ousadia de inventar, o que é função, por sua vez, da cultura empreendedora da empresa.

A empresa é mais do que a soma das pessoas que a constituem e que se relacionam com ela. A empresa é uma realidade social e não apenas multipessoal. Isso significa que a empresa não depende apenas do fator humano, mas também do fator social. E isso significa que um ambiente interno favorável ao desenvolvimento, além de ser função do capital humano, é também função do capital social.

Do ponto de vista do capital social, a criação de um ambiente interno favorável ao desenvolvimento da empresa depende da maneira como as pessoas convivem – as emoções e as razões (extra-econômicas) pelas quais permanecem juntas naquela empresa. E depende da forma como essas pessoas se relacionam, regulam seus conflitos e se conduzem coletivamente.

Uma empresa capaz de se desenvolver existe como tal na medida em que as pessoas que a constituem tenham um propósito convergente, compartilhem valores e crenças e formem algum consenso em torno de objetivos e metas. Além disso, uma empresa capaz de se desenvolver existe na medida em que as pessoas nela envolvidas tenham uma causa.

A cooperação, que faz as pessoas permanecerem juntas em uma mesma empresa, além do salário que recebem ou do lucro que auferem, não pode se instalar, se ampliar e se reproduzir na empresa como um todo se as pessoas se relacionam apenas de maneira vertical, piramidal, em uma cadeia de subordinação, cada uma sempre dependendo de outra para fazer qualquer coisa. Padrão vertical de organização, subordinação e dependência, impedem a geração, a acumulação e a reprodução do capital social. Para que o capital social possa ser gerado, acumulado e reproduzido, é necessário que as pessoas se conectem, umas com as outras, segundo um padrão horizontal de organização – ou seja, em rede distribuída –, que não sejam em tudo sempre subordinadas umas às outras e que sejam interdependentes em vez de dependentes.

A conectividade horizontal, combinada com a interdependência, leva as pessoas a estabelecerem relações de parceria entre si, em vez de ficarem o tempo todo possuídas pela preocupação de "quem vai mandar em quem". Conectividade horizontal e interdependência conduzem à autonomia das pessoas e não à subordinação. Além disso, para haver cooperação, é necessário que as pessoas compartilhem valores e objetivos comuns, ou seja, que tenham um projeto comum. Não se pode criar um clima interno favorável ao desenvolvimento se as pessoas não participam voluntariamente de ações conjuntas. E isso elas só farão na medida em que compreendam que estão compartilhando uma causa.

A causa é absolutamente necessária e ela não se confunde com a visão, a missão e os valores da empresa que geralmente são formulados em qualquer exercício de planejamento estratégico. A causa não tem a ver com o que você faz porque é funcionário da empresa e sim com o que você faz voluntariamente, porque quer fazer, porque acha bacana. Ela não é definida a partir da racionalidade do negócio da empresa e sim a partir da maneira particular, peculiar, única, como a empresa quer se dedicar àquele determinado negócio e, ao mesmo tempo, atingir um objetivo maior.

Não se trata de emular empregados e sim de contar com a sua cooperação voluntária – como parceiros da causa, como agentes da causa que sairão pelo mundo contaminando mais gente, conquistando mais voluntários.

Até hoje muitas empresas trabalharam esse tema com uma visão míope. Imaginaram que visão, missão e valores deveriam ser definidos para dar coesão a um contingente de agentes produtivos, para que eles produzissem mais e melhor, reclamassem menos, em alguns casos até abrissem mão de seus interesses pessoais em nome do bom funcionamento da empresa.

É preciso, muito além disso (e em vez disso), despertar aquele espírito do voluntariado que é capaz de mover montanhas. Com efeito, não há nada que produza capital social em maior quantidade do que o trabalho voluntário, movido por uma emocionalidade cooperativa, quando se transforma, para usar uma expressão de Robert Putnam, em um “hábito do coração”.

O DESAFIO DA GESTÃO DEMOCRÁTICA DE REDES DE STAKEHOLDERS

Vamos continuar comentando, neste post, os desafios (colocados no artigo OS GRANDES DESAFIOS DA SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL) para as empresas neste início do século 21: induzir o desenvolvimento (da empresa e do meio em que a empresa atua, elaborando, articulando e executando programas de sustentabilidade); fazer a gestão democrática da rede dos seus stakeholders (iniciando a transição do seu padrão de organização – de mainframe para network – e democratizando progressivamente seus procedimentos internos e externos); promover o voluntariado em torno de uma causa; e, exercer de uma nova maneira a sua responsabilidade social e assumir a sua responsabilidade política.

Neste artigo vamos abordar o segundo desafio: a gestão democrática de redes de stakeholders.

Se quisermos começar a reinvenção estratégica de uma empresa pela gestão democrática da rede de seus stakeholders, temos várias questões-chave para ser respondidas. Por exemplo: Como estabelecer um padrão de rede na organização, mobilizando setores, equipes e pessoas em torno de valores compartilhados e objetivos comuns? Como fazer netweaving para articular e animar redes de stakeholders? E como aplicar as novas tecnologias de informação e comunicação para iniciar a transição de uma organização-mainframe para uma organização-network? E ainda (o mais difícil): como implementar uma dinâmica democrática dentro da organização e nas suas relações externas?

Antes, porém, seria necessário dar respostas a algumas perguntas mais básicas. Por que mesmo uma empresa deve fazer a gestão democrática da rede dos seus stakeholders? O que isso tem a ver com a mudança do padrão de organização da empresa e com seus procedimentos? Por que se diz que é necessário que a empresa adote estruturas de rede distribuída e modos de funcionamento mais democráticos?

O futuro da empresa, ao que tudo indica, é deixar de ser uma unidade administrativo-produtiva isolada e passar a ser uma comunidade formada dentro da sua rede de stakeholders constituída com base em uma visão, uma missão, um conjunto de valores e, sobretudo, uma causa. Esse novo conjunto organizacional será a nova unidade macro-empresarial do futuro. Só um conjunto desse tipo – que tenha a estrutura e a dinâmica de rede cada vez mais distribuída – poderá ser sustentável. E será tão mais sustentável quanto mais distribuída for a topologia da rede que o constitui.

A esta altura da argumentação é “chover no molhado” dizer que a empresa não é o prédio em que ela funciona, não são os papéis onde estão escritos seu contrato social e outros documentos, nem os armários onde esses papéis estão arquivados, nem as máquinas e os equipamentos, nem os estoques de matéria-prima, nem suas contas bancárias e suas demais propriedades, marcas, patentes ou tecnologias que desenvolveu (se não existirem pessoas que saibam acessar, compreender e aplicar tais recursos e tecnologias). A empresa são as pessoas que a constituem e as pessoas que, individualmente ou em grupo, se relacionam com ela. Do ponto de vista da sustentabilidade, a empresa não é nem o que está agora na mente dessas pessoas (tomando um conceito ampliado de mente, como faz o budismo) e sim o que poderá estar amanhã...

Portanto, o maior capital de uma empresa é o seu pessoal: as qualidades de cada uma das pessoas que a constituem e o modo como essas pessoas interagem, dentro e fora da empresa; ou seja, o seu padrão de organização e de relacionamento, interno e externo. Assim, se quisermos que uma empresa se desenvolva, temos que investir no seu capital humano e no seu capital social.

A capacidade de estabelecer ligações entre os seus membros dá a medida da conectividade interna da empresa. Se essas relações forem horizontais, teremos uma conectividade horizontal que enseja a circulação da informação, dissolvendo os núcleos burocráticos baseados no segredo e favorecendo a desconcentração do saber.

Por outro lado, a participação leva ao aparecimento de múltiplos líderes. Em cada atividade conjunta, compartilhada por muitos voluntariamente, emergem líderes espontaneamente. Isso cria uma rica diversidade de iniciativas e de pessoas dispostas a assumir responsabilidades, o que contribui para uma desconcentração do poder.

Uma empresa capaz de se desenvolver existe como tal na medida em que exista projeto comum, conectividade horizontal e interdependência, que levam, através da multiplicação de relações de parceria, à constituição de comunidade (sim, a comunidade empresarial será a forma da empresa do futuro). Para tanto é necessário que se instale, dentro da empresa, uma cultura e uma prática de rede, ou seja, uma cultura de netweaving (em vez de uma cultura de mainframe) e uma prática de networking (de trabalhar em rede em vez de uma prática de concentrar saber e poder para mandar os outros fazerem as coisas que queremos que eles façam por nós). E na medida em que pessoas possam se conectar horizontalmente com outras pessoas a partir de valores comuns, em ligações livres (isto é, não impostas por alguém que tem poder e não condicionadas por fatores imunes à vontade do sujeito, como raça e parentesco), e não imediatamente interessadas.

Diz-se comumente que democracia é uma coisa que só pode valer para “fora” e não para “dentro” de uma organização empresarial. Grandes e médios empresários de todo o mundo viajam anualmente aos Estados Unidos para ouvir essa “verdade” de Michael Porter e de seus assistentes.

Sim, porque, como é que uma empresa poderia ser democrática, submetendo o dinheiro do dono ou o capital dos acionistas às decisões daqueles que nem tiveram a idéia, não foram empreendedores e não entraram com nenhum tostão para constituí-la? É óbvio que não poderia! E como ela poderia formular suas estratégias competitivas a não ser construindo um pensamento de Estado-Maior, que é necessariamente baseado em mérito, experiência, capacidade de visão, formulação e comando? Portanto, nada de democratismos aqui. Além disso, toda empresa tem que ter um dono (ou alguém que faça tal papel, em nome dos seus acionistas), porque, como diz o ditado: "quem engorda o gado é o olho do dono".

Ocorre que a criação de um ambiente favorável ao desenvolvimento da empresa depende do modo pelo qual as pessoas decidem o que vão e o que não vão fazer coletivamente. Se quisermos que uma empresa seja capaz de se desenvolver (e não apenas de crescer) em consonância com as mudanças do mundo contemporâneo (eis aqui uma das faces da sustentabilidade), precisaremos que ela seja criativa e constituída por pessoas criativas. Mas pessoas criativas sempre "dão problema" porque estão sempre querendo achar uma maneira diferente de fazer as coisas que queremos que elas façam. E em geral queremos que elas façam as coisas da nossa maneira – o que é repetitivo, não criativo... Para tanto, precisamos aprender a suportar e valorizar a diferença, a conviver com o contrário e a adotar um modo democrático de lidar com os conflitos que, necessariamente, vão surgir quando as opiniões das pessoas forem liberadas. Ora, isso implica praticar democracia dentro da empresa.

Não é uma questão de escolha. Não há opção aqui: se a empresa decide, atendendo às exigências da sustentabilidade, fazer a gestão da rede dos seus stakeholders, tal gestão ou será necessariamente democrática (ou pluriárquica, na medida em que a rede em questão se torne mais distribuída) ou não funcionará. Redes distribuídas não aceitam modos autocráticos de regulação.

É por isso que, ao fazer a gestão democrática da rede dos seus stakeholders, a empresa será obrigada a iniciar a transição para novas formas de organização em rede (pois parte desses nodos da rede é composta por pessoal interno). E será obrigada, igualmente, a democratizar seu funcionamento.

O DESAFIO DA INDUÇÃO DO DESENVOLVIMENTO

Dissemos, no post anterior - OS GRANDES DESAFIOS DA SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL - sobre os grandes desafios colocados para as empresas neste início do século 21, todos ligados, de alguma forma, à problemática da sustentabilidade. A sustentabilidade, hoje, exige que a empresa atue como agente de desenvolvimento, que saiba fazer a gestão da sua rede de stakeholders (e que, para tanto, inicie a transição do seu padrão de organização – de mainframe para network – e democratize progressivamente seus procedimentos internos e externos), que tenha uma causa para promover o voluntariado e que aprenda a articular politicamente não apenas seus interesses, mas também a sua causa, exercendo de uma nova maneira a sua responsabilidade social e assumindo a sua responsabilidade política.

Vamos abordar o primeiro desafio, o da indução do desenvolvimento. Se se trata de induzir o desenvolvimento da localidade onde a empresa está sediada ou do setor em que ela atua, quais seriam as metodologias mais adequadas para fazer isso? Se a indução do desenvolvimento exige a articulação e a execução de programas inovadores de investimento em capital social, que programas seriam esses, quais as suas características, como eles poderiam ser desenhados e quais os requisitos para a sua aplicação?

Antes, porém, seria necessário compreender as razões pelas quais a empresa deveria fazer essas coisas. Por que, afinal, uma empresa deve induzir o desenvolvimento do meio em que atua (da localidade onde está sediada ou do setor em que está inserida)? E por que ela precisa elaborar, articular e executar novos tipos de programas para fazer isso?

Induzir o desenvolvimento endógeno de localidades e setores é a melhor maneira de investir em capital social. Adotar 200 crianças em uma favela para aplicar um programa de educação ou de saúde comunitária, construindo uma espécie de vitrine da ação social da empresa e tendo que manter uma equipe de assistentes sociais e educadores populares à disposição desse trabalho, é menos sustentável do que promover o desenvolvimento local integrado dessa comunidade para que ela própria possa, algum dia, cuidar das suas crianças. Isso parece tão óbvio que dispensaria uma justificativa. No primeiro caso, quando pararmos de sustentar financeiramente o programa, tudo (ou quase tudo) voltará à estaca zero. No segundo caso, ficará algum saldo positivo do trabalho, sobretudo em termos organizativos. Para além de outros resultados que possam ser alcançados, esse saldo será sempre um incremento do capital social.

Esse tipo de atuação envolve um outro tipo de programa, com características bem diferentes dos chamados “programas sociais” tradicionais. Dentre as características inovadoras desses programas, talvez a principal seja a seguinte: eles não se baseiam apenas em diagnósticos de carecimentos ou necessidades e sim, sobretudo, nos ativos ou potencialidades que toda comunidade possui, mas que, em geral, estão em estado latente e precisam ser dinamizados. É por isso que tais programas são capazes de mobilizar e alavancar recursos novos em vez de ficarem eternamente dependentes de um orçamento institucional. O investimento no desenvolvimento endógeno prevê o incremento de todos os tipos de recursos econômicos, sociais e ambientais, que afetam a vida da comunidade e seus padrões de convivência social. Ora, ao serem incrementados, tais recursos também poderão ser utilizados pela empresa em maior quantidade.

Não basta, entretanto, para a empresa, aplicar, em uma localidade ou setor, uma metodologia qualquer de indução do desenvolvimento endógeno. É preciso que ela faça isso em parceria com outras instituições e em conexão com as pessoas que vivem nessa localidade ou atuam nesse setor. Existem sólidas evidências de que a produção de capital social depende diretamente das parcerias entre atores diferentes. Programas promovidos por um ator isoladamente (que freqüentemente quer atuar sozinho para ficar com todo o crédito pelos resultados alcançados), criam inevitavelmente dependência nos seus participantes, que identificam, naquele centro promotor único, a fonte dos recursos que podem beneficiá-los. Conseqüentemente, desmobilizam os esforços dos participantes no sentido de aportar ou alavancar recursos novos para a consecução das ações previstas.

Existem também fortes evidências de que tais parcerias, se forem intersetoriais – abrangendo os três tipos principais de agenciamento: o Estado, a iniciativa privada e a sociedade civil ou a comunidade – são capazes de propiciar um fluxo mais intenso de capital social na sociedade. As parcerias – sua variedade, sua intersetorialidade – constituem, inclusive, um critério de avaliação da geração de capital social efetivada por programas desse tipo.

Esse investimento sistêmico no capital social tende a aumentar também o capital humano e pode ajudar a conservar o capital natural no entorno da empresa. Ao se engajar em um tipo de iniciativa como essa, a empresa cria condições favoráveis ao seu próprio desenvolvimento, pois expande incrivelmente sua rede de relações externas, além de conseguir comover e engajar seu público interno em uma causa.

O desempenho da empresa depende do capital humano e do capital social que está no ambiente no qual ela se relaciona. Uma empresa imersa em um ambiente que apresente níveis baixíssimos de capital humano e de capital social terá imensas dificuldades para se desenvolver, mesmo que seus estoques próprios desses "capitais" sejam volumosos e de boa qualidade (o que seria um caso raro, uma vez que as pessoas que constituem uma empresa em geral integram outras instituições que compõem o ambiente externo da empresa). Quanto mais relações interorganizacionais intersetoriais a empresa mantiver, mais condições ela terá de aproveitar do capital humano e o capital social existentes no meio exterior. Mas isso só ocorrerá (quer dizer, esse efeito benéfico do meio sobre a empresa só acontecerá) quando as relações estabelecidas entre a empresa e o meio forem relações de parceria – ou seja, relações cooperativas, em rede e democráticas. Ora, relações interorganizacionais de parceria são relações de mão dupla. Nesse tipo de relação, todos os parceiros devem ganhar e a empresa não poderá auferir nenhum efeito benéfico do meio se ela também não beneficiar o meio. Estamos falando daquilo a que Jane Jacobs (2000) se referiu quando escreveu que todo desenvolvimento é co-desenvolvimento.

Uma empresa não pode auferir os efeitos benéficos do meio – em termos de incorporar capital social proveniente das suas relações externas – (e não beneficiará o meio) se essas relações forem baseadas no padrão de jogo ganha-perde (o outro tendo sempre que perder para que a gente possa ganhar ou vice-versa); se forem relações verticais, de subordinação dos outros a nós (ou de nossa sujeição aos outros); se forem baseadas em modos violentos ou coercitivos de regulação dos conflitos que porventura possam surgir (fazendo valer a nossa força para dizer o que os outros devem ou não devem fazer a partir da nossa vontade ou sendo submetidos à vontade alheia contra as nossas opiniões e interesses).

É por isso que se diz que o desenvolvimento de uma empresa depende sempre das relações que ela estabelece dentro de suas fronteiras e das relações que atravessam essas fronteiras. Ou seja, depende do ambiente interno e do ambiente externo e, sobretudo, das relações que se efetivam entre o que está dentro e o que está fora. Sustentabilidade, de um certo ponto de vista, é a capacidade de manter a congruência entre esses dois ambientes.

OS GRANDES DESAFIOS DA SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL

No artigo AVANÇANDO NO GFAL afirmamos que os desafios da sustentabilidade para as empresas neste dealbar do século 21 são quatro:

=> Induzir o desenvolvimento (da empresa e do meio em que a empresa atua, elaborando, articulando e executando programas de sustentabilidade).

=> Fazer a gestão democrática da rede dos seus stakeholders (iniciando a transição do seu padrão de organização – de mainframe para network – e democratizando progressivamente seus procedimentos internos e externos).

=> Promover o voluntariado em torno de uma causa.

=> Exercer de uma nova maneira a sua responsabilidade social e assumir a sua responsabilidade política.

Na verdade, todos esses desafios da sustentabilidade estão intimamente relacionados entre si. Não há como enfrentar um deles, sem, de algum modo, tocar nos demais.

Tudo o que contribui para o aumento do capital social, aumenta as chances de sustentabilidade de um sistema social: desenvolvimento, redes, democracia, voluntariado, responsabilidade social e política, quando promovidos ou exercitados por uma sociedade ou por uma organização, acarretam um incremento do capital social. Essa é uma evidência já bem conhecida por aqueles que estudam o assunto. Vamos, entretanto, ignorar inicialmente tal evidência para chegar à mesma conclusão partindo de cada um dos desafios considerados.

Antes de qualquer coisa, é preciso ver, como já foi mencionado aqui, que o capital social não é um recurso como os demais que foram aventados até agora para tentar compreender o processo de desenvolvimento, como a renda, a riqueza, o meio ambiente e o conhecimento. O que chamamos de capital social é o próprio ambiente configurado pelas redes sociais, ou seja, trata-se de uma outra maneira de dizer que o que chamamos de social já é um recurso para o desenvolvimento. Um recurso que aumenta na medida em que a rede social se torna mais densa (ou quanto maior a sua conectividade) e quanto mais a sua topologia se torna distribuída (ou menos centralizada ou multicentralizada).

Vamos tomar como exemplo o primeiro desafio colocado para a empresa, que diz respeito à indução do desenvolvimento. Ao adotar programas para fazer isso – que serão, necessariamente, programas de investimento em capital social –, a empresa estará, mesmo que essa não seja a sua intenção inicial, animando e articulando redes (netweaving) e, ao mesmo tempo, democratizando procedimentos, tanto externa, quanto internamente. E estará conectando pessoas-com-pessoas – pessoas que só participarão desse esforço se enxergarem nele um sentido (para além do salário que recebem, dos resultados econômicos que auferem, dos produtos e serviços que vendem ou adquirem etc.); portanto, ao fazer isso, a empresa estará promovendo o voluntariado em torno de uma causa, em nome da qual todos os envolvidos poderão exercer a sua responsabilidade social e política.

Se tomarmos o segundo desafio colocado para a empresa, o da gestão democrática da rede de seus stakeholders, o processo será semelhante. Para fazer isso, será necessário escolher e compartilhar uma causa que defina a “alma” da empresa (o que a empresa é e o que a diferencia das demais que existem no mesmo ramo, a sua identidade que está além do seu negócio e que tem a ver com a forma peculiar como ela se dedica a realizar seu core business e atrair as pessoas de algum modo interessadas nas suas atividades – os chamados stakeholders – dentro e fora da organização, em torno dessa causa). Isso, conseqüentemente, acabará induzindo o desenvolvimento da empresa e do meio onde a empresa atua. E só poderá ser feito na medida em que as pessoas, para além da noção de cumprir um dever, assumam, em alguma medida, a sua responsabilidade social e política. Novamente aqui estamos falando de investir em capital social.

O mesmo ocorrerá se partirmos dos outros dois desafios: a promoção do voluntariado em torno de uma causa ou o exercício da responsabilidade social e política. Desde, é claro, que entendamos responsabilidade social e política como uma responsabilidade com o desenvolvimento (social) como um todo, em termos sistêmicos, quer dizer, políticos, o que tem a ver com os padrões de organização e com os modos de regulação de conflitos na direção de mais cooperação, mais rede e mais democracia; em suma, novamente, mais capital social.

Seria necessário, ainda assim, analisar cada um desses desafios em separado, para tentar encontrar as melhores maneiras de orientar ações de reinvenção estratégica da empresa com vistas à conquista da sustentabilidade.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

DESENVOLVIMENTO COMO REDE DE CO-DESENVOLVIMENTOS INTERDEPENDENTES

Vimos nos dois posts anteriores duas idéias seminais, surgidas nas últimas décadas, que nos ajudam a entender o conceito de sustentabilidade: a autopoiese e o conjunto interdependência-reciclagem-parceria-flexibilidade-diversidade. Vamos agora ver a terceira: o desenvolvimento como rede de co-desenvolvimentos interdependentes

Uma terceira idéia fulcral para a compreensão dos fundamentos do conceito de sustentabilidade foi fornecida por Jane Jacobs, em 2000, no livro “A natureza das economias”. Jacobs elencou três princípios fundamentais do desenvolvimento:

1) O primeiro princípio fundamental do desenvolvimento de Jacobs é o seguinte: “O processo de desenvolvimento implica diferenciações emergindo de generalidades”.

2) O segundo princípio é o seguinte: “As diferenciações se tornam generalidades das quais emergem novas diferenciações”. (“Em outras palavras – escreve ela – desenvolvimento é um processo aberto que cria complexidade e diversidade, porque múltiplas generalidades são fontes de múltiplas diversificações – algumas ocorrendo simultaneamente, em paralelo, outras em seqüência. Portanto, um simples processo básico, quando se repete, se repete e se repete, produz atordoante diversidade”).

3) O terceiro e último princípio fundamental do desenvolvimento é o seguinte: “Desenvolvimento depende de co-desenvolvimentos”. (“Quero dizer – explica Jacobs – que não adianta pensar o desenvolvimento ‘linearmente’, ou mesmo como um conjunto de linhas abertas. Ele opera como uma rede de co-desenvolvimentos interdependentes. Sem essa rede não há desenvolvimento”).

A partir desses princípios podemos afirmar que, para Jacobs, desenvolvimento sem uma rede de co-desenvolvimentos é tão impossível para uma economia como para um desenvolvimento biológico. Que desenvolvimento é um processo aberto que produz diversidade crescente, além de numerosas, múltiplas, intrincadas relações crescentes de co-desenvolvimento. E que, no que chamamos de desenvolvimento, há um estupendo processo em ação: desenvolvimentos e co-desenvolvimentos através de diferenciações; expansão através da diversificação; continuidade através de auto-reabastecimento; estabilização através da autocorreção – todos ativados através de auto-organização imprevisível.

O mais importante, porém, é a idéia de que o modelo de desenvolvimento (compatível com o conceito de sustentabilidade) é um modelo regulacional ao invés do modelo transformacional (que inspira o comportamento de entes de vontade, como um partido ou o Estado) e do modelo variacional (adotado pelas explicações darwinistas da evolução natural e, em alguns casos, para modelar a dinâmica do mercado): o que chamamos de desenvolvimento é algo que acontece em rede e é essa rede que regula a adaptação, mudando seu programa de adaptação, ou seja, aprendendo (e isso é o que se chama de sustentabilidade ou desenvolvimento de um ponto de vista sistêmico).

Que rede é essa? Do ponto de vista da Jacobs da maturidade (2000) – que tenta captar um padrão que se aplique tanto a biologia quanto a sociologia – ela envolve um conjunto muito grande de componentes animados e inanimados. Mas se reservamos o termo desenvolvimento para sociedades humanas, trata-se então da rede social. Aquela mesma rede social que, aliás, foi definida por uma Jacobs mais-jovem (1961), há mais de quarenta anos, portanto (em “The death and life of great american cities”), como o capital social indispensável para promover a “vida” das cidades, para tornar a localidade uma entidade viva, vibrante, efervescente... ou seja (ela não disse, mas poderíamos resumir), uma comunidade em processo de desenvolvimento.

A idéia de que o que chamamos de desenvolvimento é sempre a operação de uma rede de co-desenvolvimentos interdependentes, de que sem essa rede não há desenvolvimento, é muito importante. É a idéia fundante da nova concepção de desenvolvimento que vem emergindo nos últimos anos.

Desenvolvimento seja o que for, é algo que acontece em sociedades humanas, nas redes que se formam nessas sociedades, nas redes sociais. Redes sociais são capital social, um tipo de capital que não é levado em conta pela economia do crescimento, mas que é fundamental para uma “economia do desenvolvimento”. Ou seja, para uma “economia do desenvolvimento” (que é mudança qualitativa), o capital social é tão importante como o capital propriamente dito (financeiro e físico: produto ou renda e propriedade produtiva) o é para uma economia do crescimento (que é mudança quantitativa).

Assim, para o desenvolvimento (necessariamente social), o capital social não é equivalente aos demais capitais que foram aventados, em sentido metafórico, além da renda e da riqueza, como o capital natural e o capital humano. Ele é o fator sem o qual o processo de mudança qualitativa operado pela e/ou na rede social não acontece. Porque ele, no fundo, é a própria rede social.

INTERDEPENDÊNCIA, RECICLAGEM, PARCERIA, FLEXIBILIDADE E DIVERSIDADE

No post anterior apresentei o conceito de autopoiese como a primeira das idéias seminais, surgidas nas últimas décadas, que nos ajudam a entender os fundamentos do conceito de sustentabilidade. A segunda idéia importante para compreender os fundamentos do conceito de sustentabilidade é a que foi apresentada pelo físico Fritjof Capra, em 1996. No seu magnífico livro de divulgação intitulado “A teia da vida”, Capra afirma que:

“Baseando-nos no entendimento dos ecossistemas como redes autopoiéticas e como estruturas dissipativas, podemos formular um conjunto de princípios de organização que podem ser identificados como os princípios básicos da ecologia e utilizá-los como diretrizes para construir comunidades humanas sustentáveis”.

Esses princípios seriam a interdependência, a reciclagem, a parceria, a flexibilidade e a diversidade.

Para Capra, o princípio da interdependência pode ser apresentado assim:

“Todos os membros de uma comunidade ecológica estão interligados numa vasta e intrincada rede de relações, a teia da vida. Eles derivam suas propriedades essenciais, e, na verdade, sua própria existência, de suas relações com outras coisas. A interdependência – a dependência mútua de todos os processos vitais dos organismos – é a natureza de todas as relações ecológicas. O comportamento de cada membro vivo do ecossistema depende do comportamento de muitos outros... Entender a interdependência ecológica significa entender relações... Nutrir a comunidade significa nutrir essas relações. O fato de que o padrão básico da vida é um padrão de rede significa que as relações entre os membros de uma comunidade ecológica são não-lineares... Desse modo, uma perturbação não estará limitada a um único efeito, mas tem probabilidade de se espalhar em padrões cada vez mais amplos. Ela pode até mesmo ser amplificada por laços de realimentação interdependentes, capazes de obscurecer a fonte original da perturbação.”

Quanto à reciclagem:

“A natureza cíclica dos processos ecológicos é um importante princípio da ecologia. Os laços de realimentação dos ecossistemas são as vias ao longo das quais os nutrientes são continuamente reciclados. Sendo sistemas abertos, todos os organismos de um ecossistema produzem resíduos, mas o que é resíduo para uma espécie é alimento para outra, de modo que o ecossistema como um todo permanece livre de resíduos... Aqui a lição para as comunidades humanas é óbvia... Padrões sustentáveis de produção e de consumo precisam ser cíclicos, imitando os processos cíclicos da natureza.”

E quanto à parceria:

“A parceria é uma característica essencial das comunidades sustentáveis. Num ecossistema, os intercâmbios cíclicos de energia e de recursos são sustentados por uma cooperação generalizada... A parceria – a tendência para formar associações, para estabelecer ligações, para viver dentro de outro organismo e para cooperar – é um dos “certificados de qualidade” da vida. Nas comunidades humanas, parceria significa democracia e poder pessoal, pois cada membro da comunidade desempenha um papel importante. Combinando o princípio da parceria com a dinâmica da mudança e do desenvolvimento, também podemos utilizar o termo “coevolução” de maneira metafórica nas comunidades humanas. À medida que uma parceria se processa... os parceiros aprendem e mudam – eles coevoluem.”

No que diz respeito à flexibilidade:

“A flexibilidade de um ecossistema é uma conseqüência de seus múltiplos laços de realimentação, que tendem a levar o sistema de volta ao equilíbrio sempre que houver um desvio com relação à norma, devido a condições ambientais mutáveis... Perturbações desse tipo acontecem durante o tempo todo, pois coisas no meio ambiente mudam durante o tempo todo, e, desse modo, o efeito resultante é a transformação contínua. Todas as variáveis que podemos observar num ecossistema – densidade populacional, disponibilidade de nutrientes, padrões metereológicos, e assim por diante – sempre flutuam. É dessa maneira que os ecossistemas se mantêm num estado flexível, pronto para se adaptar a condições mutáveis... Quanto mais variáveis forem mantidas flutuando, mais dinâmico será o sistema, maior será a sua flexibilidade e maior será sua capacidade para se adaptar a condições mutáveis... Essas considerações levam à importante compreensão de que administrar um sistema social – uma empresa, uma cidade ou uma economia – significa encontrar os valores ideais para as variáveis do sistema. Se tentarmos maximizar qualquer variável isolada em vez de otimizá-la, isso levará, invariavelmente, à destruição do sistema como um todo.”

Por último, a diversidade:

“Nos ecossistemas, o papel da diversidade está estreitamente ligado com a estrutura de rede do sistema. Um ecossistema diversificado também será flexível, pois contém muitas espécies com funções ecológicas sobrepostas que podem, parcialmente, substituir umas às outras. Quando uma determinada espécie é destruída por uma perturbação séria, de modo que um elo da rede seja quebrado, uma comunidade diversificada será capaz de sobreviver e de se reorganizar, pois outros elos da rede podem, pelo menos parcialmente, preencher a função da espécie destruída. Em outras palavras, quanto mais complexa for a rede, quando mais complexo for o seu padrão de interconexões, mais elástica ela será. Nos ecossistemas, a complexidade da rede é uma conseqüência da sua biodiversidade e, desse modo, uma comunidade ecológica diversificada é uma comunidade elástica. Nas comunidades humanas, a diversidade étnica e cultural pode desempenhar o mesmo papel. Diversidade significa muitas relações diferentes, muitas abordagens diferentes do mesmo problema. Uma comunidade diversificada é uma comunidade elástica, capaz de se adaptar a situações mutáveis.”

A sustentabilidade seria, então, para Fritjof Capra, a conseqüência da incidência simultânea de todos esses processos, mecanismos ou realidades, apresentados por ele como princípios ecológicos.

A primeira vista a proposta de Capra parece excelente porquanto, se as comunidades ecológicas (ecossistemas) têm se organizado – nos últimos três bilhões de anos – para maximizar a sustentabilidade, então o mais prudente seria nos aconselharmos com elas. A questão que se coloca aqui é a de se é possível, como ele quer, derivar princípios de educação, de administração e de política dos princípios ecológicos.

Ao que tudo indica a sustentabilidade das sociedades humanas não pode ser alcançada apenas com a adoção desses princípios ecológicos, porque no caso das sociedades se trata de um outro mundo (humano-social) que, como dissemos, tem como base o mundo natural, mas não é conseqüência do mundo natural.

E vale a pena repetir: a vida é um valor principal, mas não o único. Os padrões de convivência social, além da vida (biológica), também constituem um valor inegociável, quer dizer, um valor que não pode ser trocado pelo primeiro.

Assim, do ponto de vista da sustentabilidade global – do meio ambiente natural planetário e das sociedades humanas – desenvolvimento humano e social e democracia parecem ser tão importantes quanto ecologia.

Do ponto de vista da sustentabilidade das sociedades humanas, vários outros princípios deveriam ser acrescentados àqueles identificados por Capra, como, por exemplo, os pressupostos democráticos da ‘aceitação da legitimidade do outro’, da ‘liberdade e da valorização da opinião’ e do ‘exercício da conversação na praça’ (quer dizer, no espaço público) como princípios capazes de orientar a regulação dos conflitos em que nos envolvemos, norteando por eles a nossa prática política cotidiana.

Surpreendentemente, porém, o ambientalismo também pode nos alienar. Vejamos um exemplo, envolvendo o próprio Capra. No início deste século ele e o ambientalista Ernest Callenbach escreveram um artigo, que acabou sendo reproduzido amplamente, traçando o esboço de uma sociedade planetária sustentável do futuro. Vale a pena lê-lo (ou relê-lo, já que foi tão difundido):

Esboços de uma sociedade planetária sustentável

Por Fritjof Capra e Ernest Callenbach

O conceito de sustentabilidade transformou-se num elemento chave no movimento global, crucial para encontrar soluções viáveis para resolver os maiores problemas do mundo. O que significa isto? Lester Brown, fundador do Worldwatch Institute, elaborou uma definição clara: "Uma sociedade sustentável é aquela que satisfaz as suas necessidades sem diminuir as possibilidades das gerações futuras de satisfazer as delas".

Como seria, verdadeiramente, uma sociedade sustentável? Ainda não há modelos detalhados, mas na última década surgiram critérios básicos que nos permitem desenhar a forma emergente das sociedades sustentáveis.

A sustentabilidade global requer uma drástica diminuição do crescimento mundial. As sociedades sustentáveis terão populações estáveis, como as que têm hoje em dia 13 países europeus e o Japão. A população mundial deverá se estabilizar no máximo em oito bilhões de pessoas. As economias sustentáveis não serão movidas por combustíveis fósseis, mas sim por energia solar e suas muitas formas diretas e indiretas: luz solar para aquecimento e eletricidade fotovoltaica, energia eólica, hídrica e assim por diante. A energia nuclear deixará de ser usada devido a sua longa lista de desvantagens e riscos econômicos, sociais e ambientais. Os painéis solares aquecerão a maior parte da água doméstica ao redor do mundo, e a maior parte da calefação será feita pela entrada direta dos raios solares.

Com as células fotovoltaicas, os lares, em todas as partes do mundo, serão tanto produtores quanto consumidores de eletricidade. A produção de energia será muito mais descentralizada e, por isso mesmo, menos vulnerável aos cortes ou apagões.

Um sistema energético sustentável será também muito mais eficiente. A economia de combustível dos automóveis será duas vezes maior. Por sua vez, a eficiência dos sistemas de iluminação será três vezes melhor, e as necessidades de aquecimento diminuirão em 75 por cento. Tudo isto hoje em dia é possível graças às tecnologias já existentes.

O transporte numa sociedade sustentável será muito menos esbanjador e poluente do que hoje. As pessoas morarão muito mais perto dos seus lugares de trabalho e se movimentarão nas vizinhanças por sistemas altamente desenvolvidos de ônibus e transportes sobre trilhos. Haverá menos automóveis particulares. As bicicletas serão um veículo importante no sistema de transporte sustentável. Hoje em dia, já há no mundo duas vezes mais bicicletas do que automóveis. Nas indústrias sustentáveis, a reciclagem será a principal fonte de matéria prima. O design de produtos se concentrará na durabilidade e no uso reiterado, em vez da vida curta e descartável dos produtos. O desejável será uma mentalidade baseada na ética da reciclagem. As empresas de reciclagem ocuparão o lugar das atuais companhias de limpeza urbana e disposição final do lixo, reduzindo a quantidade de resíduos em pelo menos em dois terços.

Uma sociedade sustentável necessitará de uma base biológica restaurada e estabilizada. O uso da terra seguirá os princípios básicos da estabilidade biológica: a retenção de nutrientes, o equilíbrio de carbono, a proteção do solo, a conservação da água e a preservação da diversidade de espécies. É provável que as áreas rurais tenham maior diversidade do que atualmente com o manejo equilibrado da terra, em que haverá rotatividade de plantações e de cultivo de espécies. As empresas que produzirem alimentos e energia serão mais populares.

Não haverá desperdício de colheitas. Os bosques tropicais serão conservados. Não haverá desmatamento para obtenção de madeira e outros produtos. Pelo contrário, milhões de hectares de novas árvores serão plantados. Os esforços para deter a desertificação transformarão as áreas degradadas em terrenos produtivos. O uso exaustivo de pastagens será eliminado, assim como haverá modificação na cadeia alimentar das sociedades afluentes, para incluir menos carne e mais grãos e vegetais.

Novas indústrias sustentáveis estarão mais descentralizadas, fomentando uma maior independência nas grandes cidades. Os sistemas de valores que enfatizam a quantidade, a expansão, a competição e a dominação darão lugar à qualidade, à conservação, à cooperação e à solidariedade. À medida que a acumulação de riqueza material perder sua importância, a distância entre ricos e pobres diminuirá, eliminando muitas tensões sociais.

A característica decisiva de uma economia sustentável será a rejeição da cega busca de crescimento. O produto interno bruto será reconhecido como um indicador falido. No lugar do PIB, as mudanças econômicas e sociais, tanto quanto as tecnológicas, serão medidas por sua contribuição à sustentabilidade. Em um mundo sustentável, os orçamentos militares serão uma pequena fração do que são hoje. Em vez de manter caras e poluidoras instituições de defesa, os governos poderão investir em uma fortalecida Organização das Nações Unidas para a manutenção da paz.

As nações descentralizarão o poder e a tomada de decisões dentro de suas próprias fronteiras. Ao mesmo tempo, estabelecerão um grau de cooperação e coordenação sem precedentes em nível internacional para solucionar problemas globais. As diferenças ideológicas se dissiparão frente à crescente consciência de que a Terra é o nosso lugar comum, não importando os nossos diferentes antecedentes culturais. A compreensão de que todos nós compartilhamos esta Terra será a fonte de um novo código ético.

A imagem de uma futura Terra sustentável tem sido pintada com grandes pincéis. O desafio das próximas décadas é aperfeiçoar os detalhes, por meio do trabalho das corporações, dos governos, das organizações ambientais, dos partidos políticos e dos cidadãos. Nós acreditamos que o ideal da sustentabilidade é uma preciosa meta, estimulante para os seres humanos, cansados de uma época esbanjadora e destrutiva.

Note-se que no texto não existe a palavra democracia e que, na sociedade planetária sustentável do futuro, imaginada por Capra e Callenbach, parece não haver muito lugar para a política democrática. Embora eles mencionem partidos políticos, praticamente não falam de política. Ou melhor, falam, ao supor que nessa sociedade planetária sustentável do futuro os centros do poder político ainda serão os Estados-nações com suas fronteiras (mas, é claro, eles “descentralizarão o poder e a tomada de decisões dentro de suas próprias fronteiras...”). Todavia, não é por meio da política que construiremos a tal sociedade do futuro (o paraíso da sustentabilidade na Terra): tudo se arranjará a partir do avanço da compreensão do funcionamento dos ecossistemas. Até mesmo “as diferenças ideológicas se dissiparão frente à consciência de que a Terra é o nosso lugar comum, não importando os nossos diferentes antecedentes culturais et coetera”.

Não é o aprendizado coletivo resultante da experimentação de novas formas de organização e convivência com as diferenças humanas, como resposta aos desafios de conservar a adaptação a um ambiente que muda continuamente, que tornará nossas sociedades mais sustentáveis e sim uma consciência que surgirá pelo conhecimento da natureza e se imporá como novo padrão ético universal. Eis aqui um novo platonismo que, como qualquer platonismo, despreza a democracia.

AUTOPOIESE

No post anterior, “Sobre o conceito de sustentabilidade”, conclui afirmando que algumas idéias seminais, surgidas nas últimas décadas, nos ajudam a entender os fundamentos do conceito de sustentabilidade. Essas idéias são: 1) a autopoiese; 2) o conjunto interdependência-reciclagem-parceria-flexibilidade-diversidade; e, 3) o desenvolvimento como rede de co-desenvolvimentos interdependentes. Temos aqui um bom caminho de investigação.

Uma dessas idéias principais é a de autopoiese (autocriação) que foi formulada pelo biólogo chileno Humberto Maturana e seu aluno Francisco Varela em 1973. Um resumo dessa idéia, feito pelo próprio Maturana, em 1985, no texto “Desde la biologia a la psicologia”, é o seguinte:

"Os seres vivos, como sistemas determinados estruturalmente, são sistemas que, em sua dinâmica estrutural, constituem-se e delimitam-se como redes fechadas de produção de seus componentes a partir de seus próprios componentes e de substâncias que tomam do meio: os seres vivos são verdadeiros redemoinhos de produção de componentes, em virtude de que as substâncias que tomam do meio, ou vertem no meio, seguem participando transitoriamente do ininterrupto intercâmbio de componentes que determina seu contínuo revolver produtivo. É esta condição de contínua produção de si mesmos, por meio da contínua produção e intercâmbio de seus componentes, o que caracteriza os seres vivos e é isto o que se perde no fenômeno da morte".

As idéias de Maturana sobre esse processo de autopoiese (autocriação) que caracteriza os seres vivos (organismos, partes de organismos, ecossistemas e, talvez, Gaia), podem ajudar a compreensão da sustentabilidade na medida em que qualquer sistema constituído como unidade, como uma rede de produção de componentes que, em suas interações, geram a mesma rede que os produz e constituem seus limites como parte do próprio sistema no seu espaço de existência, é um sistema autopoiético. Os seres vivos são sistemas autopoiéticos moleculares e existem como tais no espaço molecular. Mas em princípio pode haver sistemas autopoiéticos em qualquer espaço no qual possa se realizar a organização autopoiética.

No mesmo texto Maturana sustenta que:

"Nos sistemas em contínua mudança estrutural, como os seres vivos, a mudança estrutural se dá tanto como resultado de sua dinâmica interna, como desencadeado por suas interações com um meio que também está em contínua mudança. A conseqüência disso é que, a partir da estrutura inicial do ser vivo, ao começar sua existência, o meio já aparece selecionando nele, ao desencadear mudanças determinadas em sua estrutura, as conseqüências de mudanças estruturais que ocorrem ao longo de seu viver, em uma história de sobrevida que necessariamente ocorre na congruência do ser vivo e do meio, até que o ser vivo morra porque esta congruência se perde".

Daí podemos inferir (como ele próprio, Maturana, infere) que a estrutura de cada ser vivo é, em cada instante, o resultado do caminho de mudança estrutural que seguiu a partir de sua estrutura inicial, como conseqüência de suas interações no meio em que lhe coube viver. E que o que chamamos de vida é um exemplo de sustentabilidade, ou seja, é a capacidade de fazer e refazer, continuamente, congruências múltiplas e recíprocas com o meio.

Maturana assinala ainda que:

"Os seres vivos existem sempre imersos em um meio com o qual interagem. Além disso, como o viver de um ser vivo transcorre em contínuas mudanças estruturais – como resultado de sua própria dinâmica interna ou desencadeadas pelas suas interações com o meio – um ser vivo conserva sua organização em um meio somente se sua estrutura e a estrutura do meio são congruentes e se esta congruência se conserva. Se não se conserva a congruência estrutural entre ser vivo e meio, as interações com o meio desencadeiam no ser vivo mudanças estruturais que o desintegram e ele morre”.

Fazendo um paralelo com outros sistemas sustentáveis, poderíamos afirmar que, considerando que essa congruência estrutural entre ser vivo e meio (seja qual for este meio) chama-se adaptação, uma organização continua existindo como tal (como um sistema) somente enquanto conserva a sua adaptação. E que todo sistema existe somente na conservação de sua adaptação e de sua organização e somente em circunstâncias nas quais a conservação de uma envolva a conservação da outra. Por último, podemos dizer que a estrutura presente de uma organização (sistema) é sempre o resultado de uma história na qual suas mudanças estruturais foram congruentes com as mudanças estruturais do meio.

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

SOBRE O CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE

O tema central do GFAL é sustentabilidade. Cabe investigar como esse tema vem sendo tratado nos meios empresariais, sobretudo nas business schools.

Até meados da década de 1990 a preocupação principal do empresariado concentrava-se em qualidade e produtividade. Na passagem para o século 21, nos últimos dez ou quinze anos, o foco deslocou-se para a sustentabilidade. O grande desafio agora é compreender as novas exigências da sustentabilidade.

Mas os departamentos de responsabilidade social das empresas continuam tentando juntar ações setoriais que não têm muita relação entre si, como se combinando 800 miligramas de operação econômica, com 150 miligramas de preocupação ambiental e 50 miligramas de ação social, pudéssemos desencadear algum tipo de reação química capaz de catalisar um processo sustentável. Infelizmente, fórmulas como essa não poderão produzir 1 grama de sustentabilidade.

Há, portanto, um problema com a concepção de sustentabilidade.

Ao contrário do que muitos acreditam, o conceito de sustentabilidade não se aplica somente ao mundo natural, aos diversos ecossistemas terrestres e ao ecossistema planetário. A palavra sustentabilidade ficou identificada com o ambientalismo porquanto foi estudando os sistemas naturais que percebemos pela primeira vez a incrível capacidade de conservação da adaptação e da organização que caracteriza os seres vivos (sejam organismos, partes de organismos ou ecossistemas). Nos últimos vinte anos, entretanto, percebemos que a sustentabilidade não é apenas uma dimensão ambiental (no sentido do meio ambiente natural) do desenvolvimento e sim o novo nome do próprio desenvolvimento sob uma perspectiva sistêmica (englobando todas as outras dimensões, inclusive a social).

Percebemos que a chamada “teia da vida” era uma estrutura capaz de regular as mudanças de modo a contribuir para a sustentabilidade não porque era um sistema biológico e sim porque era um sistema complexo adaptativo, organizado em rede. Ou seja, começamos a perceber a existência de relações intrínsecas entre os padrões de organização em rede e os processos de sustentabilidade. E percebemos ainda, no tocante às sociedades e às organizações humanas, a existência de um nexo entre as mudanças sociais que interpretamos como desenvolvimento, as redes como padrão de organização e a democracia como modo de regulação de conflitos. A democracia começou então a ser compreendida como uma espécie de “metabolismo” próprio de redes sociais distribuídas.

Assim, quando a sustentabilidade emerge como o grande tema contemporâneo, não é apenas em razão dos perigos iminentes, que ameaçam nossa sobrevivência como espécie – como o aquecimento global – causados, em parte, pela falta de preservação ou de conservação dos recursos naturais. O desafio da conquista da sustentabilidade entra na pauta das sociedades como uma espécie de síntese de outros desafios que têm a ver com os padrões de organização e de convivência social. Sociedades só se transformarão em comunidades sustentáveis na medida em que seus padrões de organização e de convivência social forem capazes de constituir ambientes favoráveis ao desenvolvimento humano e social, o que depende – não há como negar – da maneira como as pessoas interagem e de como regulam seus conflitos. De sorte que hoje já podemos afirmar que a sustentabilidade das sociedades humanas é o novo nome do desenvolvimento, uma característica do padrão dinâmico de rede e, ao mesmo tempo, um dos efeitos do processo de democratização.

Tal compreensão, todavia, ainda está muito pouco difundida.

Quando falam de sustentabilidade, freqüentemente as pessoas se esquecem de dizer de que sustentabilidade se trata. A do planeta (e aí dá vontade de fazer uma provocação: por que não a do sistema solar, a da galáxia ou a do quadrante em que nos situamos neste universo)? Se não, trata-se então da sustentabilidade da vida na Terra (ou da biosfera)? Ou será que nossa preocupação é com a sustentabilidade do ser humano como espécie? Mas não seria mais pertinente – se estamos tratando de sustentabilidade empresarial – nos preocuparmos com a sustentabilidade das sociedades humanas (e, por conseqüência, das organizações que a compõem, como as empresas)?

Ainda que os padrões (ou os mecanismos, ou os processos) de sustentabilidade possam ser semelhantes, os desafios são diferentes dependendo do âmbito a que nos referimos. E misturar as coisas, achando que organizações (como as empresas) serão sustentáveis se se dedicarem à proteção do meio ambiente (natural), não ajuda muito. Tudo indica que tal providência não é suficiente: uma empresa pode trabalhar o quanto quiser em prol da conservação ambiental, mas nem por isso terá garantida a sua sustentabilidade organizacional. E é duvidoso que suas ações possam contribuir para salvar a vida na Terra.

O planeta vivo – Gaia, na hipótese dos cientistas James Lovelock e Lynn Margulis – tem uma capacidade incrível de conservar a sua adaptação e a sua estrutura básica. “A vida ou a biosfera regula ou mantém o clima e a composição atmosférica em um nível ideal para si mesma” (esta é a hipótese Gaia). O problema, como argumenta Lovelock (1991), é que uma parte de Gaia, composta pelo “restante da criação... moverá inconscientemente a própria Terra para um novo estado, um estado no qual nós, seres humanos, poderemos não mais ser bem-vindos”.

Lovelock não está preocupado com a vida em geral, que permanece protegida por um eficiente mecanismo autoregulador, e sim com a vida humana. Essa, sim, corre sério risco de desaparecimento; não por más, mas por boas razões do ponto de vista do sistema vivo global: se os seres humanos forem sacrificados por Gaia, o serão por efeito colateral de um processo que visa, sobretudo, garantir a vida na Terra.

Não estamos obrigados a aceitar os juízos políticos que Lovelock deriva dessa espécie de determinismo biológico fatal. Em um prefácio de 2004, ao livro “Gaia: medicine for an ailing planet” ele faz um apelo a todos os ambientalistas para que:

"Ponham de lado os seus temores sem fundamento [por exemplo, em relação ao progresso científico-técnico na sintetização de alimentos ou na utilização da energia nuclear] e a sua obsessão exclusiva em relação aos direitos humanos [e essa é uma conclusão, digamos, pelo menos temerária, em um tipo de civilização como a que vivemos]... Sejamos corajosos o bastante - exorta Lovelock - para reconhecer que a verdadeira ameaça provém dos danos que causamos ao ser vivo que é a Terra, da qual fazemos parte, e que é realmente o nosso lar".

Sim, mas essa não é a única "verdadeira ameaça": estamos diante de várias outras ameaças, que não podem ser consideradas como não-tão-verdadeiras.

Lovelock endossa as palavras do seu cientista-chefe, Sir David King, o qual declarou, no início de 2004, nos Estados Unidos, "que o aquecimento global é uma ameaça maior do que o terrorismo". Talvez até seja. Mas isso não pode desviar nossa atenção das ameaças à democracia e ao desenvolvimento humano e social sustentável, que são tão verdadeiras e tão presentes quanto a ameaça do aquecimento do planeta.

Não é uma questão de comparar riscos. É claro que o desaparecimento da espécie humana anulará todas as preocupações humanas. Mas, de certo modo, algum dia a nossa espécie desaparecerá mesmo: pelo menos neste planeta, com a extinção do sol (que deixará de ser uma estrela amarela daqui a aproximadamente 5 bilhões de anos); ou nesta galáxia, que está marcada para morrer (como já se sabe, a nossa Via Láctea está em rota de colisão com a galáxia de Andrômeda, a 125 quilômetros por segundo e o desastre ocorrerá nos próximos 10 bilhões de anos); ou neste universo, com o "Big Crunch".

Ocorre que, por meio do que chamamos de social, estamos construindo um mundo humano, que tem como base o mundo natural, mas que não é conseqüência do mundo natural. A tentativa humana de humanizar o mundo (ou, para usar uma expressão poética, de humanizar a "alma do mundo" por meio do social) é uma espécie de segunda criação... Para quem pensa assim, a vida é um valor principal, mas não o único: certos padrões de convivência social, além da vida (biológica) – como a cooperação ampliada socialmente ou a vida em comunidade, as redes voluntárias de participação cidadã e a democracia na base da sociedade e cotidiano do cidadão – também constituem um valor inegociável, quer dizer, um valor que não pode ser trocado pelo primeiro.

Vamos caricaturar um pouco uma hipotética situação de escolha, para mostrar o sentido do argumento. Se alguém nos dissesse que, para continuar existindo como espécie, nós, os seres humanos, nunca mais poderíamos materializar, em nossa convivência social, a cooperação, o voluntariado, as redes e a democracia, a troca valeria a pena? Quem de nós poderia aceitar tal trade off, condenando nossa espécie a viver, por exemplo, (não apenas mil anos, mas, digamos, um milhão de anos ou mais) naquele III Reich com que sonhavam Hitler e seus colaboradores sociopatas e psicopatas?

Em outras palavras, não podemos esquecer tudo isso para nos dedicarmos agora somente a tentar retardar o desaparecimento biológico da espécie. Não vale ser salvo da destruição para viver em um mundo desumanizante.

Isso não significa que devamos agora descurar das ameaças ambientais. Mas se nossa preocupação é com a sustentabilidade das organizações humanas que fazem parte da sociedade – como as empresas – os fatores propriamente humanos e sociais devem ter um peso tão decisivo quanto (ou até mais decisivo que) os fatores naturais (ambientais), não?

Aquilo que devemos preservar é, justamente, o que pode nos preservar como sociedade tipicamente humana. Cooperação, voluntariado, redes e democracia são os elementos da nova criação humana – e humanizante – do mundo, que lograram se configurar como padrões de convivência social, que vale realmente a pena preservar. E são esses os elementos que podem garantir a sustentabilidade das sociedades humanas e das organizações que a compõem.

Conquanto a palavra sustentabilidade venha sendo muito usada nos últimos anos, nem por isso pode-se dizer que o seu sentido e os seus fundamentos já estejam bem compreendidos. Muitas vezes o conceito é empregado como sinônimo de durabilidade, o que dificulta a compreensão do seu significado. Uma barra de aço inoxidável dá a impressão de ser uma coisa que dura para sempre – ou dura muito; no entanto, não constitui o melhor exemplo de sustentabilidade porquanto não evoca os processos dinâmicos por meio dos quais alguma coisa se torna sustentável. Ser sustentável evoca imagens de movimento, como “dançar conforme a música” ou “andar com as próprias pernas”, que freqüentemente são mais esclarecedoras do que as explicações muito elaboradas. E não se imagina uma barra de aço fazendo nada isso.

Um outro exemplo, bem melhor, de sustentabilidade, é fornecido pelos seres vivos, quer dizer, por organismos, partes de organismos e ecossistemas (incluindo o ecossistema planetário, que foi chamado de Gaia – se aceitarmos a hipótese Lovelock-Margulis). Se alguma coisa continua viva, é sinal de que está reunindo condições de sustentabilidade. É sinal de que está conseguindo mudar de acordo com a mudança das circunstâncias, o que – embora possa ocorrer – não é tão visível numa barra de aço quanto numa colônia de bactérias. Exige, por parte de um sistema, um fazer e refazer, continuamente, congruências múltiplas e recíprocas com o meio, conservando sua adaptação ao meio em que existe, desde que, ao conservar sua adaptação ao meio, conserve também sua organização interna (do contrário não poderia continuar mantendo a mesma identidade e, nesse caso, não poderíamos falar propriamente do mesmo ‘ser’ ao nos referirmos a ‘ser sustentável’).

Mas ser sustentável significa também ser capaz de mudar o próprio programa de adaptação, quando a situação o exige. Ora, somente o que tem a morfologia (e a dinâmica) de rede – como, por exemplo, a estrutura neural distribuída do cérebro humano – consegue fazer isso. Assim podemos afirmar que só podem ser sustentáveis sistemas complexos adaptativos que têm a estrutura de rede. Se o cérebro humano fosse organizado segundo os padrões hierárquicos de um órgão estatal, de uma empresa ou de uma organização da sociedade civil, não poderíamos continuar existindo (ou melhor, não poderíamos nem ter surgido). Se um ecossistema fosse organizado como um exército, e a resposta a um incêndio ou a um alagamento dependesse da avaliação de um estado-maior e tivesse de aguardar as ordens transmitidas hierarquicamente dos generais para os coronéis, para os majores, para os capitães, para os tenentes e para os sargentos e cabos até poderem ser implementadas pelos soldados, não existiria biosfera no planeta Terra.

De modo geral podemos dizer que só é sustentável o que se desenvolve continuamente, segundo um ponto de vista sistêmico. Entretanto, tal como ocorre com o conceito de desenvolvimento, a sustentabilidade que nos interessa envolve as sociedades humanas. Que Gaia (o “planeta-vivo”) seja sustentável, não se discute (se aceitarmos a hipótese Lovelock-Margulis). O problema para nós, seres humanos, é se continuaremos existindo como tais, não apenas como indivíduos (ou como espécie biológica), mas como sociedade.

Nossas sociedades (e as organizações que dela fazem parte) são sustentáveis? Se não são, o que devemos fazer para que sejam? Essa é a grande questão da sustentabilidade, tal como está colocada neste início do terceiro milênio.

Algumas idéias seminais, surgidas nas últimas décadas, nos ajudam a entender os fundamentos do conceito de sustentabilidade. Essas idéias são:

1) a autopoiese;

2) o conjunto interdependência-reciclagem-parceria-flexibilidade-diversidade; e,

3) o desenvolvimento como rede de co-desenvolvimentos interdependentes.

Temos aqui um bom caminho de investigação.

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

AVANÇANDO NO GFAL

Para entender o que vem a seguir o leitor deve ler primeiro o post anterior, intitulado ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL

Ou fazemos coro com o que vem sendo proposto e discutido (o que não é mal em si, pelo contrário, é necessário e correto – se não fizermos apenas isso), ou (também) acrescentamos conteúdo novo e sugerimos novas pistas para criar ambientes favoráveis àquela experimentação inovadora capaz de inspirar novos propósitos, valores, métodos, pesquisas, parcerias e diálogos para a educação empresarial diante dos desafios colocados pelas exigências da sustentabilidade neste início do século 21.

O melhor desdobramento da iniciativa é o que alia as duas tarefas acima: participar do que está sendo proposto e discutido, aproveitando a oportunidade para propor mais e ampliar o campo da discussão.

Não adianta muito mudar o perfil e os paradigmas curriculares das business schools se não convencermos o setor empresarial dessa necessidade face aos desafios da sustentabilidade. A meu ver, duas coisas, porém, devem estar bem claras, se quisermos motivar o empresariado a fazer as mudanças necessárias para enfrentar tais desafios.

A primeira delas é a constatação de que uma empresa isolada (enquanto unidade administrativo-produtiva) jamais poderá alcançar sustentabilidade. Sustentabilidade (ou desenvolvimento, em uma visão sistêmica) é sempre a operação de uma rede de co-desenvolvimentos interdependentes. Para alcançar sustentabilidade a empresa deve fazer uma gestão adequada da rede de seus stakeholders, voltada para o seu próprio desenvolvimento e para o desenvolvimento do mundo onde ela e seus parceiros atuam. Não se pode esquecer que o que chamamos de desenvolvimento (ou sustentabilidade, segundo um modelo regulacional e não transformacional ou variacional) é algo que acontece em rede.

A segunda coisa que deveria estar bem clara para o setor empresarial, é que uma empresa não pode alcançar sustentabilidade apenas por razões empresariais (e com base em processos de mercado). Aqui seria preciso partir da consideração de que empresas não são o que parecem: a primeira vista são enterprises de um empreendedor que arregimenta subordinados em troca de um pagamento, mas nenhuma empresa poderá se tornar sustentável por razões exclusivamente empresariais, sem alavancar recursos novos (baseados no engajamento voluntário, no entusiasmo para criar e para inovar) que não podem ser obtidos apenas em troca de remuneração. Para tanto, as empresas devem ter uma causa e devem contar com trabalho voluntário de seus colaboradores em torno dessa causa (transformando esses colaboradores em agentes do desenvolvimento da empresa e do mundo onde a empresa atua).

Em 1995, James Collins e Jerry Porras, no livro “Built to last: successful habits of visionary companies”, já haviam constatado que “a empresa será cada vez mais mantida pela ideologia. As pessoas ainda têm uma necessidade humana de pertencer a algo de que possam se orgulhar. Elas necessitam de valores e de um objetivo que dá significado às suas vidas e aos seus trabalhos. Elas precisam estar ligadas a outras pessoas, compartilhando com elas crenças e aspirações em comum”.

E o que Collins e Porras profetizaram, há mais de dez anos, parece estar se realizando. “Mais do que nunca os empregados exigirão autonomia operacional ao mesmo tempo em que exigirão que as organizações às quais estão ligados defendam algo. E observe as tendências do mundo externo: fragmentação, segmentação, mudança caótica, imprevisibilidade, maior espírito empreendedor, etc. Apenas as empresas adeptas a estimular o progresso poderão prosperar. As empresas terão que se renovar continuamente, talvez através de incríveis metas ambiciosas, a fim de continuarem sendo lugares em que trabalhar é excitante. As empresas que buscam a grandeza terão que estimular incansavelmente mudanças e melhorias antes que o mundo as exija. As empresas que imitam a evolução das espécies mais aptas – aquelas que tentam várias coisas e aplicam o que der certo – terão maiores chances de sobreviver num ambiente imprevisível e mutante; as outras provavelmente serão extintas. Nós achamos que as empresas visionárias do século 21 terão que se tornar cada vez mais fanáticas quanto a preservar a sua ideologia central e cada vez mais agressivas quanto a conceder autonomia operacional aos seus empregados”.

Pouco tempo depois (em 1997) Arie de Geus, em "The living company" escreveu que "uma empresa viva saudável terá membros, representados por pessoas e outras instituições, que aderirão a um conjunto de valores comuns e que acreditarão que os objetivos da empresa tanto lhes permitem alcançar seus próprios objetivos individuais como os ajudam nesse sentido".

Portanto, se quisermos resumir os grandes desafios colocados para as empresas neste início do século 21, diríamos que sustentabilidade, hoje, exige que a empresa atue como agente de desenvolvimento, que saiba fazer a gestão da sua rede de stakeholders (e que, para tanto, inicie a transição do seu padrão de organização – de mainframe para network – e democratize progressivamente seus procedimentos internos e externos), que tenha uma causa para promover o voluntariado e que aprenda a articular politicamente não apenas seus interesses, mas também a sua causa, exercendo de uma nova maneira a sua responsabilidade social e assumindo a sua responsabilidade política.

Enfrentar os desafios da sustentabilidade é a única maneira de aumentar a garantia de futuro. Em outras palavras, a empresa que quiser ter futuro deve se preocupar, no presente (agora, não depois; hoje, não amanhã), com esses quatro desafios, respondendo as questões-chave suscitadas por cada um deles:

· Induzir o desenvolvimento (da empresa e do meio em que a empresa atua, elaborando, articulando e executando programas de sustentabilidade).

· Fazer a gestão democrática da rede dos seus stakeholders (iniciando a transição do seu padrão de organização – de mainframe para network – e democratizando progressivamente seus procedimentos internos e externos).

· Promover o voluntariado em torno de uma causa.

· Exercer de uma nova maneira a sua responsabilidade social e assumir a sua responsabilidade política.

Tudo isso até soa razoável, mas agora é preciso mostrar por que a realização das quatro tarefas sugeridas acima será capaz de aumentar as chances de sustentabilidade de uma organização. Por que uma empresa deveria perder tempo, mudar ou ampliar o foco principal de suas preocupações estratégicas e gastar preciosos recursos para mexer com coisas que, aparentemente pelo menos, não aumentam o retorno sobre seus investimentos, como desenvolvimento local e setorial, redes e democracia, voluntariado e política?

Na minha opinião, essa é a pergunta-chave que não pode faltar no GFAL e sobre ela deveríamos nos debruçar.

ANÁLISE DO CONTEÚDO DOS PRINCÍPIOS DO GLOBAL COMPACT PARA A EDUCAÇÃO EXECUTIVA DE ALTO NÍVEL

A proposta do Pacto Global de reforma (ou aggiornamento) da chamada educação executiva de alto nível está baseada em uma redefinição de propósito, de valores, de método, de (foco de) pesquisa e de (ampliação das) parcerias e do diálogo. Segundo a proposta, o novo tratamento desses seis focos deveria ser orientado por princípios pactuados por todos os participantes e operados por uma parceria (privilegiada) entre setores empresariais e instituições acadêmicas.

Assim surgiram os seis Princípios para a Educação Empresarial Responsável, que tentam estabelecer uma relação intrínseca (ou um nexo conotativo) entre educação empresarial, responsabilidade social e sustentabilidade (em um sentido, porém, ainda marcadamente setorial, relativo à sustentabilidade ambiental).

Mas isso já é, inegavelmente, um grande avanço. Até agora a responsabilidade social foi (e em grande parte ainda é) tratada como um assunto lateral nas empresas e, inclusive – por incrível que pareça – nas business schools. Nas empresas o tema ainda é encarado, predominantemente, como ação de marketing. Nas maiores escolas de negócios, do Brasil e do mundo, os temas da responsabilidade social e da sustentabilidade já comparecem, mas sem um vínculo orgânico com os eixos curriculares normais: estratégia, gestão organizacional, gestão de pessoas e (em alguns casos, de instituições mais avançadas) gestão de stakeholders.

É positivo, portanto, vale repetir, tentar vincular organicamente os três temas a partir de uma declaração de princípios pactuados. No entanto, se permanecer no terreno dos princípios, a iniciativa corre o risco de se esgotar em manifestações declaratórias (que serão incorporadas ao marketing das empresas e das business shools, compondo seu novo discurso – tal como ocorreu com a responsabilidade social de modo isolado e, inclusive, com as preocupações com a sustentabilidade global).

Além disso, mudar os parâmetros curriculares das instituições de alto aprendizado envolvidas na educação de atuais e futuros administradores, apenas incorporando os novos temas (e adestrando os futuros líderes na reprodução do novo discurso) também não é suficiente para promover a verdadeira transformação de padrões de organização e de modos de regulação exigida para concretizar os princípios enunciados pelo Global Compact.

Percebe-se aqui, claramente, uma deficiência teórica e metodológica. Entende-se que os princípios tenham mesmo que ser gerais o suficiente para possibilitar uma ampliação do pacto. Princípios muito detalhados dificultariam a adesão em ampla escala dos atores, enfraquecendo em vez de fortalecer a iniciativa, que ficaria restrita a poucos visionários.

Tudo isso é compreensível. No entanto, os seis princípios enunciados não levam ao estabelecimento de uma relação orgânica entre educação empresarial, responsabilidade social e sustentabilidade. A coisa ainda está no campo das boas intenções, de valores a serem infundidos – denunciando uma visão platônica que privilegia a força das idéias sobre os processos participativos na mudança de atitudes e comportamentos (como pretendo mostrar mais adiante).

Vamos examinar o conteúdo dos princípios enunciados para depois tentar mostrar os desdobramentos que seriam necessários para alcançar o objetivo proposto pelo Global Compact no que tange à educação empresarial.

Princípio 1. Propósito: Nós vamos desenvolver as capacidades dos estudantes para serem futuros geradores de valor sustentável para negócios e sociedade no geral e para trabalharem a favor de uma economia global sustentável e inclusiva.

Princípio 2. Valores: Nós vamos incorporar em nossas atividades acadêmicas e currículos os valores da responsabilidade social global apresentados em iniciativas internacionais, como o Pacto Global da Organização das Nações Unidas.

Como declarações de princípios as duas sentenças acima estão corretas.

Princípio 3. Método: Nós vamos criar estruturas, materiais, processos e ambientes que possibilitem experiências eficazes de aprendizado para liderança responsável.

Não há qualquer sugestão de método neste princípio, apenas a afirmação de que é necessário encontrar métodos capazes de viabilizar uma educação empresarial responsável para a sustentabilidade. Mas não é partindo da criação de “estruturas, materiais, processos” que se conseguirá alcançar esses métodos (e é bom manter essa palavra sempre no plural!) e sim, como declara corretamente o princípio, criando “ambientes que possibilitem experiências... de aprendizado”. Ah! Sim. Aqui sim! Caberia dizer, entretanto, que tipo de experiências seriam essas. Se quisermos avançar em termos de concretização será necessário estabelecer parâmetros.

Parece óbvio que responder as questões-chave colocadas pelos grandes desafios da sustentabilidade exige uma dose considerável de esforço coletivo, de experimentalismo inovador, de tentativa e erro, de acúmulo de fracassos como condição para o sucesso. Mas não há outra saída.

A sustentabilidade jamais estará dada, ela deverá ser permanentemente conquistada e talvez se confunda com o caminho que percorremos na sua busca. O importante é não parar no caminho, não interromper a busca, não ficar nem um instante sem se mover. Quem deixa de se desenvolver (de inovar), morre. Essa é grande lição da sustentabilidade que aprendemos com os seres vivos. Não são as idéias (proclamadas e repetidas no discurso) que modificam os comportamentos e sim as experiências (ensaiadas, vivenciadas) de novos comportamentos.

Princípio 4. Pesquisa: Nós vamos nos engajar em pesquisas conceituais e empíricas que melhorem nossa compreensão sobre o papel, a dinâmica e o impacto de empresas na criação de valores de sustentabilidade social, ambiental e econômica.

Em primeiro lugar, vamos examinar a concepção de sustentabilidade embutida nesse quarto princípio. Há aqui uma visão setorial da sustentabilidade, que segue a crença, que se difundiu amplamente a partir da proposta do Triple Bottom Line ou do “Triplo Resultado”, introduzida por John Elkington, em 1998, no livro “Cannibals with Forks: the Triple Bottom Line of 21st Century Business”. Vamos tomar como exemplo a definição, bastante adotada nos últimos dois anos (de Andrew Savitz e Karl Weber: 2006):

“Empresa sustentável é aquela que gera lucro para os acionistas, ao mesmo tempo em que protege o meio ambiente e melhora a vida das pessoas com que mantém interações.”

Ao ler tal definição, as pessoas tendem a achar que é disso mesmo que se trata: sustentabilidade econômica (gerar lucros), sustentabilidade ambiental (proteger o meio ambiente) e sustentabilidade social (melhorar a vida dos cidadãos).

Mas o conceito de sustentabilidade vai muito além dessas coisas, conotando um sentido sistêmico que não pode ser adequadamente traduzido por uma soma de ações setoriais: econômicas, ambientais e sociais.

Embora qualquer empresa tenha como objetivo precípuo a geração de lucro e deva ter a responsabilidade suficiente para não destruir os recursos que serão necessários para a vida da geração presente e das gerações futuras e para não afetar negativamente as sociedades que sofrem o impacto de seu funcionamento, sua sustentabilidade não poderá ser conquistada (e não estará garantida) apenas com a efetivação dessas medidas preconizadas pelos defensores do “Triple Bottom Line”.

Ademais, tal definição é imprecisa, pois não se trata exatamente de ‘proteger’ o meio ambiente e sim de promover a sua conservação de forma dinâmica (isto é, dinamizando as potencialidades naturais latentes em prol do desenvolvimento). E é imprecisa também porque não se trata exatamente de ‘melhorar a vida das pessoas’ individualmente e sim de contribuir para a criação de ambientes que favoreçam o seu desenvolvimento humano e social.

Por último, tal definição é flagrantemente incompleta, pois embora considere as dimensões econômicas, ambientais e sociais da sustentabilidade, não leva em conta a sua dimensão política.

Quando Elkington propôs, em 1998, o conceito de “Tríplice Resultado”, ele estava sugerindo que as empresas avaliassem o sucesso não só com base no desempenho financeiro (lucro, retorno sobre o investimento – ROI, ou valor para os acionistas), mas também sob o ponto de vista de seu impacto sobre a economia mais ampla, sobre o meio ambiente e sobre a sociedade em que atuam. Assim, o “Tríplice Resultado” poderia ser expresso por meio de uma tabela como a publicada por Savitz & Weber em 2006 (no livro “The Triple Bottom Line”):

Parece óbvio que está faltando uma coluna na tabela acima, relativa aos impactos políticos da atuação da empresa. Não adianta dizer que a dimensão política já está presente implicitamente nos fatores considerados, pois todos sabemos que não está: onde colocar, por exemplo, os financiamentos de campanhas de candidatos promovidos pelas empresas?

Também parece muito fraca a explicação de que a ação empresarial não pode se intrometer na dimensão política. Supondo que isso fosse verdade, quer dizer, que as empresas não fizessem política (e no mal sentido, em geral) o tempo todo, por que razão elas não poderiam fazê-lo? Não estamos falando da política partidária, é claro.

É possível mostrar que não adianta muito para uma empresa exercer a sua responsabilidade econômica, ambiental e social se não exercer também a sua responsabilidade política.

Mas quais seriam os indicadores que deveriam constar de uma quarta coluna a ser acrescentada à tabela acima (a coluna da dimensão política)? Por certo não deverá ser o grau de alinhamento da empresa a partidos ou candidatos. Uma empresa não pode se partidarizar, sob pena de contrariar a diversidade de opiniões e interesses de seus stakeholders. E, muito menos, deveria ser a colaboração com governos por princípio, sem prestar atenção aos critérios éticos, democráticos e de desenvolvimento que estão orientando a atuação desses governos. Infelizmente, isso ainda é feito por boa parte das grandes empresas, em nome de uma suposta neutralidade ou não interferência na esfera política. Mas, na verdade, trata-se de mera desculpa para não se prejudicar (ou para levar algum tipo de vantagem sobre a concorrência), ficando sempre ao lado do poder: uma fórmula tão fácil quanto injustificável do ponto de vista ético-político, que já levou a várias tragédias conhecidas, como a adesão de grandes empresários ao governo de Hitler na Alemanha dos anos 30 do século passado (alguns chegaram até a financiar muitas das barbaridades nazistas: Ig-Farben, Siemens, Krupp, Bayer e tantos outros, devem ter avaliado que seria “bom para os negócios”).

Ora, se não devem ser esses os indicadores políticos de sustentabilidade empresarial, quais seriam então?

Podemos aventar aqui quatro tipos de indicadores:

1) a natureza inovadora (ou não) dos programas de responsabilidade corporativa promovidos pela empresa (uma empresa que exerce a sua responsabilidade social promovendo programas conservadores – não-inovadores – de caráter assistencialista, clientelista ou centralizador, não contribui para a conquista da sustentabilidade);

2) a adoção de padrões de organização em rede dentro e fora da empresa, por meio de uma adequada gestão de redes de stakeholders (pois uma empresa que adota padrões verticais, hierárquicos ou piramidais, na sua organização interna e no relacionamento com seus stakeholders, também não contribui para a conquista da sustentabilidade);

3) a adoção de modos democráticos de regulação de conflitos dentro e fora da empresa (pois uma empresa que adota métodos autocráticos – quase monárquicos – para regular o seu funcionamento interno e o seu relacionamento com os seus stakeholders, certamente estará em dessintonia com uma sociedade que tende a se democratizar na medida em que assume a morfologia e a dinâmica de uma sociedade-rede); e

4) a adoção de critérios éticos, democráticos e de desenvolvimento para o seu relacionamento com o sistema político (pois uma empresa que financia campanhas de políticos corruptos ou apóia agentes, governos, partidos e organizações não comprometidos com a democracia e o desenvolvimento, igualmente não pode contribuir para a conquista da sustentabilidade).

Se adotássemos novos indicadores de sustentabilidade como esses – todos eles, perceba-se bem, de natureza política, ou diretamente relacionados com a política – alteraríamos radicalmente a maneira como o setor empresarial ainda se comporta nessa área.

Em segundo lugar, vamos falar do objeto ou do foco da pesquisa de que fala o Princípio 4. Ela deveria se concentrar no que está faltando nos modelos explicativos sobre sustentabilidade empresarial. É necessário mostrar por quê o exercício da responsabilidade corporativa é necessário, por razões de empresa, para aumentar as chances de sustentabilidade de uma organização.

Sem uma resposta convincente para essa pergunta, caímos novamente nas razões de marketing e aí vale qualquer coisa, ou qualquer coisa que estiver na moda, como o balanço social, a ISO 26000 e os famosos indicadores de responsabilidade social associados à sustentabilidade – em geral setoriais ou multisetoriais e não-sistêmicos, e com forte ênfase na área ambiental (como a ISO 14064) – que vêm sendo adotados, como o Índice Dow Jones e os Princípios do Equador no caso das instituições financeiras.

Nada disso, por certo, é inútil. São louváveis todos os esforços das empresas para, ao mesmo tempo em que geram lucros para seus acionistas, proteger o meio ambiente e melhorar a vida das pessoas com que mantêm interações. O problema é que nenhum desses instrumentos e indicadores de responsabilidade social e de sustentabilidade, consegue se justificar por razões intrínsecas, que tenham a ver com a própria idéia de sustentabilidade e com seus fundamentos. Na falta de uma “ciência da sustentabilidade” e de hipóteses corroboradas por pesquisas experimentais, a relação entre responsabilidade corporativa e sustentabilidade teria que ser mostrada pela força dos argumentos. Mas o que menos se encontra nas teorizações atuais sobre responsabilidade corporativa e sustentabilidade são argumentos convincentes. Em geral as pessoas estão preocupadas em articular discursos, apelando para exemplos impactantes ou para previsões catastróficas capazes de comover o público (é o caso, claramente, de uma parte dos discursos ambientalistas sobre o aquecimento global). Ou, então, estão dedicadas a formular novos indicadores, apostando, talvez, no efeito mítico das fórmulas matemáticas para passar a impressão de que há uma ciência por trás do que estão propondo.

Para elaborar uma argumentação convincente teríamos que voltar nossa atenção para os fundamentos do conceito de sustentabilidade e refazer o caminho conceitual que nos trouxe até aqui, quer dizer, até o ponto de podermos formular os desafios de sustentabilidade colocados para as empresas neste início do século 21.

Princípio 5. Parceria: Nós vamos interagir com administradores de empresas de negócios para ampliar nosso conhecimento sobre seus desafios na busca de responsabilidades sociais e ambientais e explorar maneiras eficazes de enfrentar estes desafios.

Sim, isso é correto, desde que não dividamos a responsabilidade corporativa em setores ou “caixinhas” (social, ambiental) e que não esqueçamos da sua responsabilidade política (já mencionada aqui).

Princípio 6. Diálogo: Nós facilitaremos e apoiaremos diálogo e debate entre educadores, empresas, governo, consumidores, mídia, organizações da sociedade civil e outros grupos interessados e investidores sobre questões críticas relacionadas à responsabilidade e sustentabilidade social no mundo.

Este, por incrível que pareça, é o melhor princípio. Primeiro porque sem o diálogo (que pressupõe relação horizontal... em rede) entre os diferentes stakeholders é impossível alcançar sustentabilidade. Segundo porque envolve outros atores além da privilegiada parceria entre empresas, business schools, e instituições acadêmicas (que se justifica no tocante à pesquisa, mas que é insuficiente para uma redefinição dos termos envolvidos nessa relação).

Por último, as questões críticas relacionadas à responsabilidade e sustentabilidade social (!) no mundo são as mesmas questões. Não são duas ordens de questões como sugere o enunciado do sexto princípio. Essa é a perspectiva sistêmica que está faltando em toda a formulação dos princípios do Global Compact aplicados à educação empresarial (e, inclusive, nos seus dez princípios gerais).